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Patrulhense radicado há 37 anos na Alemanha relata trajetória de vida, adaptação e visão sobre a guerra na Europa

Morando há 37 anos na Alemanha, o patrulhense Sadir Ramos retornou recentemente a Santo Antônio da Patrulha para rever familiares, visita que não fazia desde 2015. Atualmente trabalhando como cuidador de idosos em uma instituição, função que exerce desde 2003, ele pretende solicitar a cidadania alemã apenas para obter o direito de votar no país onde construiu sua vida.
Durante sua passagem pela cidade, Sadir conversou com a reportagem da Folha Patrulhense sobre sua trajetória, os desafios da adaptação à cultura e ao idioma alemão e também sobre sua visão a respeito da guerra entre Rússia e Ucrânia, conflito acompanhado de perto pelos europeus.
Das origens à decisão de deixar o Brasil
Filho de Olivério Coelho Ramos e Joaquina Francisco Ramos, Sadir cresceu em uma família numerosa, com quatro irmãos e quatro irmãs, sendo o oitavo filho. A morte precoce da mãe marcou sua infância.
Aos 14 anos mudou-se para Porto Alegre, onde passou a viver com tios, trabalhando durante o dia e estudando à noite. Três anos depois, emancipou-se com o apoio do pai e foi morar em São Paulo.
Segundo ele, a mudança representava também uma busca pessoal.
— Na verdade, eu estava fugindo da minha não aceitação da homossexualidade. Cresci em uma sociedade que, naquela época, era muito marcada pelo conservadorismo, machismo e preconceito. Foi muito difícil entender que eu não era uma pessoa doente, apenas diferente dos padrões que me cercavam.
A primeira viagem à Europa
Em 1986, Sadir embarcou como mochileiro para a Europa. Trabalhou como garçom na Espanha, lavou pratos na Alemanha e aproveitou os seis meses de permanência para conhecer diversos países do continente.
De volta ao Brasil, assumiu a gerência de um restaurante francês em São Paulo. Porém, um assalto sofrido na porta de seu apartamento, em julho de 1989, mudou definitivamente seus planos.
— Depois daquela noite nunca mais consegui dormir tranquilo naquele apartamento. Vendi tudo o que tinha e, apenas 30 dias depois, já estava novamente na Alemanha.
Os primeiros empregos
Ao chegar à cidade de Koblenz, voltou a trabalhar lavando pratos em um barco turístico que navegava pelo rio Reno entre Koblenz e Rüdesheim.
Mais tarde mudou-se para Berlim, onde assumiu serviços de limpeza em apartamentos. Entre dezembro e maio, integrou um trio de brasileiros que se apresentava musicalmente nas estações do metrô da capital alemã.
Desde 2003 trabalha como cuidador de idosos, profissão que considera uma das mais gratificantes que exerceu.
O desafio do idioma
Sadir conta que a adaptação ao idioma alemão ocorreu de forma natural, graças ao convívio diário com colegas de trabalho.
Sem poder frequentar inicialmente uma escola, improvisou uma forma de aprender.
— Meu apartamento era cheio de etiquetas em alemão. Colei palavras em todos os objetos da casa: porta, janela, pia, geladeira, fogão, prato, xícara, faca, garfo, colher. Assim fui aprendendo o vocabulário do dia a dia.
Em 1991, já estabelecido em Berlim, conseguiu ingressar em um curso formal de alemão.
Na mesma época conheceu aquele que define como “o amor da minha vida”, relacionamento que completa mais de três décadas.
Visão sobre a guerra
Vivendo em um dos países mais envolvidos nas discussões europeias sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, Sadir acredita que a guerra ainda deve durar.
Na sua avaliação, interesses estratégicos e econômicos, especialmente relacionados às reservas minerais da Ucrânia, dificultam uma solução rápida.
Ele afirma que muitos países europeus mantêm apoio militar à Ucrânia por receio de que a expansão russa possa atingir outras nações do continente.
Para Sadir, uma solução duradoura passaria pela maior integração da Ucrânia às estruturas políticas e econômicas do Ocidente, incluindo o mercado interno europeu e, eventualmente, sua entrada na OTAN.
Hoje, após quase quatro décadas vivendo na Alemanha, Sadir diz sentir-se plenamente integrado ao país que escolheu para viver, sem perder os vínculos com Santo Antônio da Patrulha, cidade onde mantém familiares e para a qual sempre procura retornar quando possível.

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