Projeto apresentado pela advogada Luísa Pacheco, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB, levou crianças a conhecerem a história e a simbologia das bonecas de pano
Uma pequena boneca de pano chamou a atenção no estande da OAB durante a FENACAN. Feita apenas com amarrações e tranças, sem costura ou cola, a boneca abayomi foi o instrumento escolhido pela advogada criminalista Luísa Pacheco, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB de Santo Antônio da Patrulha, para desenvolver o projeto “Mãos que Contam Histórias”.
A iniciativa busca apresentar às crianças a simbologia atribuída às abayomis, associadas à força, resistência e criatividade. Segundo Luísa, a tradição conta que mulheres escravizadas confeccionavam pequenas bonecas com retalhos de suas próprias roupas para seus filhos durante as viagens nos navios negreiros.
A advogada, porém, faz uma importante ressalva: pesquisas e documentos históricos não comprovam que as bonecas tenham sido efetivamente produzidas naquele período. “Não se tem documentos públicos, registros que confirmem que essas bonecas foram de fato feitas lá. Não se sabe se isso foi uma lenda que foi sendo trazida de tempos em tempos ou se de fato aconteceu”, explicou.
Na FENACAN, a proposta ganhou vida com uma oficina realizada pela manhã. Crianças que participavam da programação da Feira do Livro confeccionaram suas próprias bonecas, produziram roupas e acessórios e levaram as peças para casa.
Para Luísa, além do aspecto cultural, a atividade representa uma oportunidade de estimular brincadeiras longe das telas. Ela conta que ficou especialmente feliz ao ver crianças deixando o estande com as bonecas nas bolsas e demonstrando entusiasmo pelo trabalho artesanal.
A ideia chegou até Luísa por meio de sua avó de coração, Jussara Moraes, professora, e de sua mãe, Neide, também professora aposentada. “Sou neta de professora, filha de professora. Não tem como o sangue ir muito longe”, brinca.
IGUALDADE RACIAL
À frente da Comissão de Igualdade Racial da OAB, Luísa também destaca as dificuldades para desenvolver ações por falta de integrantes e apoiadores. Mesmo assim, conta com voluntários e pessoas próximas para colocar os projetos em prática. No ano passado, a comissão realizou o “Solta Esse Cabelo”, voltado à valorização dos cabelos cacheados.
A própria trajetória profissional de Luísa, como advogada criminalista, também é marcada pela necessidade de enfrentar preconceitos. Ela relata que, em ambientes predominantemente masculinos, muitas vezes sente que precisa reforçar sua imagem profissional para ser respeitada.
“Infelizmente, hoje a gente sendo advogada e advogada criminalista precisa frequentar locais como presídios, delegacias e Ministério Público, que são dominados por homens. Então a gente precisa ter essa força representada muitas vezes através de uma maquiagem, através de uma roupa”, afirma.
Assim, entre a advocacia e a defesa da igualdade racial, Luísa encontrou nas pequenas bonecas de pano uma forma simples de transmitir uma mensagem maior: resistência também pode ser construída com as próprias mãos.