O 5º Raizinha, realizado no Polo Universitário, proporcionou também o reencontro com histórias de pessoas que ajudaram a construir a trajetória de Santo Antônio da Patrulha. Entre elas está Beloni Alma de Souza Ferreira, nascida em 15 de julho de 1935, na localidade de Arroio Grande, interior de Entrepelado, hoje pertencente ao município de Taquara. A historiadora Vera Maciel Barroso trouxe dona Beloni a Santo Antônio para contar sobre sua experiência adquirida desde a infância na casa paterna.
Aos 91 anos, Beloni guarda na memória lembranças de uma época em que a cana-de-açúcar era uma das principais fontes de sustento das famílias rurais da região. Desde menina, trabalhou na lavoura e participou de todas as etapas da produção de rapadura, atividade que marcou sua juventude até os 22 anos, quando se casou e mudou-se para Porto Alegre.
Naquele tempo, o trabalho era essencialmente artesanal. Os engenhos eram movimentados por bois e a cana passava pelas moendas para produzir o caldo, que depois era levado ao forno, ao tacho e, finalmente, às formas. Segundo Beloni, em determinados períodos chegavam a ser produzidas 500 rapaduras ou mais por dia, que depois eram empalhadas em palha de milho.
“Era o que tínhamos há mais de 60 anos. Os agricultores daquela região viviam, em grande parte, da cana-de-açúcar, da rapadura e do açúcar mascavo”, recorda.
“Uma senhora de dois mundos”
Para Beloni, recordar aquele período significa reviver um mundo que praticamente desapareceu. Ela se define como uma “senhora de dois mundos”: aquele em que viveu sua infância e juventude, marcado pelo trabalho rural e pelas atividades manuais, e o atual, dominado pela tecnologia.
É justamente por isso que considera iniciativas como o Raizinha tão importantes. Para ela, os jovens recebem atualmente uma quantidade enorme de informações, mas muitas delas não permanecem porque não são vivenciadas.
“Eu acho importantíssimo, porque a gente guarda mais as coisas quando vivencia. Então, essas vivências, essa história, esse resgate, essa narrativa são muito importantes”, afirma.
Da enfermagem para a arte
Depois de muitos anos em Porto Alegre, Beloni encontrou, já aos 52 anos, uma nova paixão: a arte. Após trabalhar como auxiliar de enfermagem, passou a frequentar o Ateliê Livre e acabou descobrindo uma atividade que mudaria sua vida.
Desde então, participou de exposições no Brasil e no exterior, com trabalhos apresentados inclusive no Uruguai e na República Tcheca. Mas foi na própria terra que encontrou sua principal matéria-prima.
Há mais de 30 anos, Beloni pesquisa as diferentes cores, texturas e características do solo. A descoberta aconteceu quando observou a coloração avermelhada da terra após uma chuva e levou um pouco do material para experimentar em seus trabalhos.
Hoje, mantém em casa amostras de terras trazidas por amigos de diferentes lugares do Brasil e do mundo. Alemanha, Suíça, Índia e Paraná estão entre os locais de onde já recebeu pequenas porções de solo.
“Eu sempre sei que vou utilizar aquilo. Muitas vezes guardo como lembrança de um momento. Essa riqueza me instiga a continuar”, explica.
A terra como memória
O trabalho artístico acabou se transformando também em uma forma de reencontro com suas próprias raízes. A terra que durante a juventude significava apenas trabalho e sustento passou a ser, muitos anos depois, matéria-prima para sua arte.
Beloni também levou essa experiência para escolas e oficinas, trabalhando com crianças e jovens e mostrando que a terra pode ser muito mais do que aquilo que se pisa.
“Da terra tudo se tira. Inclusive a arte”, resume.
A participação de Beloni no 5º Raizinha reforça justamente a proposta do encontro: recuperar histórias, experiências e conhecimentos que fazem parte da identidade patrulhense e que, se não forem preservados, poderão se perder com o passar das gerações.
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