Pode um gaúcho se bandear para o outro lado do mundo e deixar para trás a sua querência? Pode até atravessar oceanos, cruzar fronteiras, enfrentar frios de renguear cusco e se acostumar com paisagens cobertas de neve. Mas esquecer o Rio Grande… isso já é outra história!
Porque quem nasceu nesta terra leva consigo muito mais do que documentos, malas e lembranças. Leva o cheiro do campo depois da chuva, o fogo de chão, a fumaça subindo ao céu, o mate cevado na roda de amigos, o assado lentamente preparado na brasa, a gaita chorando uma milonga e aquele sentimento difícil de explicar que atende pelo nome de saudade da querência.
Foi assim que um grupo de gaúchos, vivendo muito longe das coxilhas, encontrou uma maneira de manter acesa a chama do Rio Grande. E lá, no frio da Noruega, surgiram os Vikings de Bombacha.
O nome já diz quase tudo: um pouco dos antigos guerreiros nórdicos, um pouco dos nossos tauras, e muita bombacha, chimarrão e orgulho de ser gaúcho.
UMA EPOPÉIA FARRAPA EM TERRAS NÓRDICAS
Se lá pelos pagos do Sul a Semana Farroupilha lembra os feitos dos homens e mulheres que participaram da Revolução Farroupilha, na Noruega ela ganha um significado ainda mais especial para quem está distante. como se, por alguns momentos, o Rio Grande fosse transportado para milhares de quilômetros de distância.
No último sábado, dia 12, cerca de 170 gaúchos e gaúchas se reuniram no rancho de Herbert Meregalli, em uma festa que juntou gente de várias querências, não apenas da Noruega e da Escandinávia, mas também de diferentes pontos da Europa e do Reino Unido.
E teve gente que fez o caminho inverso da saudade: saiu do Rio Grande do Sul, atravessou o mundo e foi se encontrar com outros gaúchos para celebrar a tradição. “Tchê, lôca de especial!”, resume Herbert, enquanto serve seu inseparável chimarrão. “Reunimos cerca de 170 gaúchos e gaúchas, de várias querências, que vivem não só na Noruega e na Escandinávia, mas também em outros países da Europa e no Reino Unido. Tivemos até amigos e familiares que saíram do Rio Grande do Sul, atravessaram o mundo e vieram festejar conosco. Foi um daqueles dias que a gente vai guardar para sempre na nossa memória.”
MATE, FOGO E GENTE QUERIDA
E se alguém pensa que, para fazer uma Semana Farroupilha na Noruega, basta vestir uma bombacha e colocar um lenço no pescoço, está muito enganado.Os Vikings de Bombacha fizeram a coisa como manda o figurino.
Teve churrasco de fogo de chão, mate, grito de “Sapucay”, música, gaita, baile e, principalmente, aquela coisa que gaúcho gosta tanto quanto de um bom assado: prosa comprida entre amigos.
“É uma maneira de trazer um pedacinho do Rio Grande para cá”, conta Herbert.
E São Pedro também resolveu participar da festa à sua maneira. O dia teve chuva, sol e frio, como é comum por aquelas bandas. A madrugada chegou perto dos 7°C e a temperatura máxima ficou em torno dos 15°C. Mas, para quem estava reunido ao redor do fogo, isso era quase detalhe.
OS NORUEGUESES JÁ ESTÃO PEGANDO GOSTO
A gauchada não está sozinha naquela terra de vikings. Cada vez mais noruegueses e pessoas de outras nacionalidades se aproximam das festas e começam a conhecer os costumes trazidos pelos brasileiros.
Alguns já se acostumaram com o mate, com o churrasco e com o jeito peculiar dos gaúchos de transformar qualquer encontro em uma grande confraternização. “Temos amigos noruegueses e de outras nacionalidades que já conhecem a nossa festa e fazem questão de participar. Alguns já estão acostumados com o churrasco, o mate e toda essa nossa maneira de celebrar. Muitos também formaram famílias com gaúchos e acabaram criando um vínculo muito bonito com a nossa cultura”, relata Herbert.Ou seja: aos poucos, os noruegueses estão descobrindo que uma roda de chimarrão também pode ser uma excelente maneira de fazer amizade.
UMA QUERÊNCIA A MILHARES DE QUILÔMETROS
A comunidade gaúcha por lá é pequena, mas, como ele próprio define, muito unida e presente. Há amigos espalhados por outras cidades norueguesas e também por outros países europeus. É essa rede de amizades que ajuda a manter viva a cultura do Rio Grande.
Herbert e Karina vivem em Oslo, capital da Noruega, há sete anos. O casal foi para aquele país em razão de uma oportunidade profissional de Karina, que trabalha como diretora na área de Planejamento da Yara Fertilizantes. Herbert continua atuando na área de comunicação e marketing. Mas, como bom gaúcho, não poderia ficar quieto. “Estou sempre procurando uma ‘incomodação’, que aqui na Noruega encontrei nos Vikings de Bombacha!”, brinca.
A SAUDADE NÃO SE ENTREGA
Por mais bonita que seja a nova morada, a saudade continua rondando o coração de quem deixou a querência.
E Herbert sabe disso. “A saudade nunca desaparece completamente, mas esses encontros ajudam muito. Quando a gente se reúne, fala do nosso jeito, toma um mate, prepara um churrasco e escuta uma gaita, parece que por algumas horas estamos um pouco mais perto de casa.”
Talvez seja essa a força maior da tradição: fazer com que um povo continue se reconhecendo, mesmo quando está longe de sua terra.
Porque basta uma cuia passando de mão em mão, uma gaita puxando os primeiros acordes e o cheiro da carne assando para que a memória faça o resto. Por alguns instantes, as distâncias desaparecem.
ATÉ A CARNE TEVE QUE SE ADAPTAR
Quando chegou à Noruega, Herbert descobriu que fazer churrasco gaúcho por aquelas bandas também exigia um pouco de persistência.
Ao procurar carne para assar, os comerciantes estranhavam quando ele dizia que o destino seria um churrasco.
Afinal, por lá a cultura alimentar é bem diferente e o consumo de carne de rena faz parte da realidade local.
Foi preciso explicar o que um gaúcho queria dizer quando falava em churrasco.
Hoje, porém, a situação é bem diferente.
“No começo era mais complicado explicar exatamente o corte que a gente queria, mas com o tempo fomos encontrando os lugares certos e os comerciantes também foram conhecendo melhor os nossos pedidos. E, claro, gaúcho não se encolhe nem pra dormir, então sempre damos os nossos ‘pulos’…”, conta, divertido.
E quem conhece um gaúcho sabe: se não existe o lugar certo para fazer o churrasco, ele dá um jeito de encontrar um.
O RANCHO DA SAUDADE
Os Vikings de Bombacha não nasceram com a pretensão de ser um CTG, nem de criar uma entidade tradicionalista formal.
Nasceram de algo muito mais simples e, talvez por isso mesmo, muito mais verdadeiro: a vontade de estar junto.
Herbert explica: “Nunca tivemos a pretensão de formar um CTG ou de sermos tradicionalistas de carteirinha. O que a gente quer é reunir pessoas, matar um pouco da saudade e criar memórias. No fim das contas, o que fica da vida são histórias para contar.” E histórias, pelo jeito, não faltam.
A GRANDE CUIA

Entre as fotografias enviadas à Folha Patrulhense, uma delas merece um registro especial.
Vista de cima, uma enorme cuia, com a bomba devidamente armada, aparece formada pelos cerca de 170 gaúchos que participaram da festa.
Não foi uma montagem qualquer.
Foi a própria gauchada transformando-se em uma grande cuia de chimarrão.
A imagem, registrada por um drone, parece traduzir tudo aquilo que os Vikings de Bombacha representam: gente espalhada pelo mundo, mas unida pela mesma origem.
E a ideia, naturalmente, só poderia ter vindo de Herbert.
Lá no norte do mundo, onde o frio faz parte da paisagem e a neve contrasta com o verde dos nossos pagos, os Vikings de Bombacha seguem cevando o mate, assando a carne e proseando sobre as coisas do Rio Grande.
Porque, afinal de contas, pode o gaúcho mudar de país. Pode mudar de continente. Pode até aprender a conviver com os vikings. Mas a querência, essa vai junto na mala.
E quando a saudade aperta, basta uma cuia, um fogo de chão, uma gaita e um bom punhado de amigos para o Rio Grande voltar a florescer, nem que seja por algumas horas, bem no coração da Noruega.