Em nome da indústria gaúcha e em busca de apoio do Ministério da Saúde, o presidente do Sistema FIERGS, Claudio Bier, entregou na sede da federação uma carta ao ministro Alexandre Padilha na qual expressa preocupação com bets. Em encontro realizado na sede da Federação, Bier definiu o crescimento explosivo das apostas esportivas e dos jogos de azar online como uma verdadeira epidemia.
“Percebemos nas nossas indústrias bons funcionários doentes por conta das apostas, com alguns casos chegando, inclusive, ao suicídio”, disse o presidente, ao ressaltar o papel central da prática no endividamento da população. Padilha aproveitou a reunião para apresentar iniciativas promovidas pelo ministério para lidar com o assunto, como a plataforma de autoexclusão. A ferramenta desenvolvida pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda permite que o cidadão bloqueie o próprio acesso a todas as casas de apostas federais autorizadas por um período mínimo de um mês. Padilha convidou Bier para contribuir na formação de um grupo de trabalho juntamente com outras federações estaduais.
A agenda também abordou a chegada do Centro de Informação em Saúde e Clima (Cisc) em Porto Alegre. A estrutura tem o objetivo de ampliar a capacidade dos municípios de antecipar riscos, monitorar eventos extremos e organizar respostas rápidas, integradas e baseadas em evidências. O ministro explicou que a iniciativa possibilita a antecipação de ações de acordo com os prognósticos climáticos.
Eis o teor da carta entregue por Claudio Bier a Padilha:
“Em nome da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS) compartilho uma preocupação crescente do setor industrial gaúcho: os efeitos da expansão das plataformas de apostas on-line, as chamadas bets, sobre a saúde dos trabalhadores e de suas famílias.
A indústria acompanha com atenção os sinais de agravamento desse fenômeno. Estudos e dados recentes indicam que o crescimento das apostas digitais está associado ao aumento de casos de ansiedade, depressão, endividamento, ruptura de vínculos familiares e desenvolvimento do transtorno do jogo, já reconhecido como um importante problema de saúde pública. O próprio Ministério da Saúde lançou, neste ano, um guia nacional para enfrentar os impactos das apostas on-line na saúde, reconhecendo a necessidade de prevenção, acolhimento e tratamento.
Para a indústria, o tema assume contornos ainda mais sensíveis. Temos observado, com crescente preocupação, relatos de trabalhadores e famílias impactados pelo comprometimento da renda, pelo endividamento e pelo adoecimento emocional decorrentes do jogo compulsivo. Os efeitos desse processo repercutem diretamente na saúde mental, no ambiente familiar, no bem-estar e, consequentemente, na produtividade e na qualidade de vida dos trabalhadores. Essa realidade preocupa especialmente o Sistema FIERGS porque, através do Sesi-RS, acompanhamos os desafios relacionados à saúde mental, ao bem-estar e à produtividade nas empresas e sabemos que o avanço descontrolado das apostas on-line representa um novo fator de risco, com potencial para ampliar o endividamento, o sofrimento psíquico e os impactos sociais sobre milhares de trabalhadores e suas famílias.
Por essa razão, entendemos que o enfrentamento dos efeitos das apostas on-line exige uma ação articulada entre os poderes públicos, os sistemas de saúde, as entidades representativas e a sociedade civil, com foco em prevenção, informação, diagnóstico precoce e ampliação das redes de cuidado em saúde mental. Ao mesmo tempo, entendemos ser necessário corrigir as distorções econômicas existentes. O crescimento acelerado das bets transformou as apostas on-line em um setor bilionário, que hoje opera sob uma carga tributária significativamente inferior àquela suportada por setores produtivos tradicionais, especialmente a indústria, que gera empregos, investe, inova e movimenta extensas cadeias produtivas.
Defendemos a proteção da saúde dos trabalhadores, a ampliação das políticas públicas de prevenção e cuidado em saúde mental e a construção de um ambiente regulatório mais equilibrado e socialmente responsável. Temos convicção de que o Brasil precisa enfrentar esse tema com a urgência e a seriedade que ele exige, colocando a saúde das pessoas no centro do debate.
Agradeço a atenção de V. Exa. e coloco o Sistema FIERGS e o SESI-RS à disposição para contribuir com esse diálogo e com iniciativas que fortaleçam a saúde e a qualidade de vida dos trabalhadores brasileiros.”