Produtores do estado, responsável por 70% da produção brasileira, relatam falta de combustível desde semana passada; impasse entre distribuidoras e refinarias gera “jogo de empurra”.
A colheita de arroz no Rio Grande do Sul, responsável por sete de cada dez quilos do grão consumidos no Brasil, está em ritmo de paralisia. Desde a última quinta-feira (5), produtores rurais relatam a interrupção no fornecimento de óleo diesel, combustível essencial para a operação das colheitadeiras e tratores. O desabastecimento ocorre justamente no ápice da safra, colocando em risco a viabilidade econômica do setor e isso ocorre principalmente devido à guerra atual envolvendo países do Oriente Médio como o Irã.
De acordo com a Federação da Agricultura do Estado (Farsul), a situação é crítica. “O produtor está tendo que ir aos postos de gasolina para pegar diesel, mas isso dá para no máximo um dia; não é possível operacionalizar dessa forma”, alerta o presidente da entidade, Domingos Velho Lopes. Segundo ele, o tempo é o maior inimigo: o estoque médio das fazendas dura de quatro a sete dias e atrasos superiores a 72 horas podem resultar na perda total da colheita. Tudo se agravou depois que os Estados Unidos iniciaram os ataques ao Irã e na redução por parte de alguns países do Oriente Médio, na produção de petróleo.
Geopolítica e preços
O estopim da crise remete à instabilidade no Oriente Médio. Ataques recentes dos Estados Unidos ao Irã e cortes na produção de petróleo elevaram o preço do barril Brent em 14,65% em menos de uma semana.
Como o Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, a volatilidade internacional atingiu o mercado interno. A suspeita de lideranças rurais é que elos da cadeia de distribuição estejam represando o estoque à espera de novos reajustes, já que o barril se aproxima da marca dos US$ 100.
O impasse logístico
O fornecimento para as fazendas é feito via Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs), que acusam as distribuidoras de reduzirem os repasses. “Começou um jogo de empurra-empurra; as distribuidoras dizem que a culpa é da refinaria e os TRRs culpam as distribuidoras”, afirma Lopes. Do outro lado, os órgãos oficiais negam o desabastecimento:
A Petrobras afirmou que as entregas na Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), que atende o estado, seguem o volume programado.
Já a Agência Nacional do Petróleo em nota, garantiu que os estoques são suficientes e informou que notificará as distribuidoras para prestarem esclarecimentos sobre o volume retido.
Para Francisco Neves, diretor-executivo da Associação Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis, embora a guerra no Irã gere tensão na oferta, o cenário é de ajuste de preços, e não de falta física do produto. Enquanto o mercado se equilibra, o produtor gaúcho corre contra o relógio para tirar o grão do campo antes que o prejuízo se torne irreversível.
Fonte: Jornal do Comércio