Obras avançam no ano do bicentenário da passagem do imperador Dom Pedro I pelo município; primeira etapa do projeto representa investimento de R$ 2,54 milhões
As obras de restauro do casarão bicentenário que abriga a Fundação Museu Antropológico Caldas Júnior seguem em ritmo acelerado em Santo Antônio da Patrulha. A intervenção ocorre em um ano especialmente simbólico para a história local: 2026 marca o bicentenário da passagem do imperador Dom Pedro I pelo município, ocorrida em 6 de dezembro de 1826.
Outro encontro entre passado e presente ocorreu no último dia 31 de agosto, justamente na data que Santo Antônio da Patrulha celebrou 266 anos de povoamento. Na ocasião, foi realizada a primeira medição da obra de restauro, reunindo representantes do Município, da Fundação Museu, da gestão do projeto e da equipe técnica responsável pelas intervenções.
Participaram da atividade o prefeito Rodrigo Gomes Massulo; o presidente e diretor administrativo e financeiro do Museu Caldas Júnior, Rafael Barcela Gudaites; o secretário municipal da Cultura, Turismo e Esportes, Sérgio Alexandre Airoldi (Canário); a diretora de Cultura, Jassira Castro Ramos; o coordenador da Cultura, Fernando Rocha Lauck; a arquiteta e urbanista e fiscal técnica do contrato, Elen Mara Debona; além de Cristina Seibert Schneider, Anderson Miguel Christ, Paulo da Luz, William Pavão Xavier e Maria Eduarda Kaspary, integrantes da equipe técnica do projeto.
Um casarão que atravessa mais de dois séculos de história
Construído por volta de 1820, com características da arquitetura luso-açoriana, o casarão que abriga o Museu Caldas Júnior atravessou mais de dois séculos e está relacionado a importantes capítulos da história de Santo Antônio da Patrulha e do Rio Grande do Sul.
Entre eles está a passagem do imperador Dom Pedro I por Santo Antônio da Patrulha, em 6 de dezembro de 1826. A tradição histórica preservada pelo Museu relaciona a passagem do imperador ao espaço onde atualmente se encontra o Jardim do Imperador, nos fundos da propriedade. No local está a bicentenária Palmeira Imperial, cuja tradição oral associa seu plantio à passagem de Dom Pedro I pelo município.
O imóvel também possui uma ligação especial com Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, patrono da instituição e fundador do Jornal Correio do Povo. Ainda menino, Caldas Júnior residiu com a família durante oito anos no casarão, onde viveu parte de sua infância. Mais tarde, em 1º de outubro de 1895, fundaria o Correio do Povo, tornando-se um dos nomes de destaque da história da comunicação no Rio Grande do Sul.
Assim, o restauro realizado justamente no ano do bicentenário da passagem de Dom Pedro I ganha um significado que ultrapassa a recuperação física da edificação: trata-se da preservação de um espaço que mantém viva diferentes camadas da memória patrulhense e gaúcha.
Intervenções revelam condições estruturais do prédio
Nesta fase inicial, os trabalhos estão concentrados principalmente nas intervenções internas. Em razão das condições climáticas registradas nos últimos meses, que dificultaram a realização de serviços externos, a equipe priorizou demolições e outros trabalhos no interior do imóvel.
Com a retirada de elementos comprometidos, foram identificadas situações que reforçam a importância e a complexidade do processo de restauro. Entre elas está o barroteamento do piso, totalmente comprometido pela ação de cupins. Também foi constatado que a fundação não atingia solo firme e que algumas paredes internas de estuque apresentavam irregularidades e apoio inadequado, sustentadas por barrotes, igualmente comprometidos.
Diante das condições encontradas, a equipe técnica definiu soluções destinadas a assegurar a estabilidade e a segurança da edificação antes do avanço das demais intervenções.
Fundações recebem atenção especial
Um dos principais trabalhos em andamento é a chamada “retomada das fundações”, que envolve escavações sob a alvenaria de pedra, execução de bases de concreto e preenchimento com graute, possibilitando a transferência das cargas da edificação para solo firme.
Nas paredes internas, está prevista a execução de uma estrutura de concreto, com viga invertida e peças de madeira destinadas a apoiar e fixar as paredes de estuque após a estabilização do conjunto.
A intervenção no telhado ocorrerá somente depois da completa estabilização das fundações e paredes. Também está prevista a execução de contrapiso de concreto armado rebaixado, que atuará como barreira contra cupins de solo e contribuirá para a estabilização do terreno, funcionando como uma grande laje.
Próximos 30 dias serão dedicados às fundações e paredes
Nos próximos 30 dias, as atividades estarão concentradas principalmente na retomada das fundações e na estabilização das paredes internas. Como parte significativa dessas intervenções estruturais ficará oculta após a conclusão do restauro, os trabalhos serão acompanhados por registros fotográficos, documentando as diferentes fases da recuperação do casarão.
Paralelamente às intervenções físicas, a equipe de museologia dará andamento aos trabalhos relacionados ao Plano Museológico, à documentação e ao planejamento da futura organização dos espaços. A nova expografia está prevista para a segunda etapa do projeto.
A primeira etapa da obra, que contempla também as intervenções no telhado, possui prazo previsto de 12 meses, com conclusão estimada para 2027, condicionada ao andamento dos serviços e às condições climáticas.
A próxima reunião de medição está marcada para 28 de setembro, às 14h30min, quando será apresentado um novo panorama do avanço das intervenções, especialmente nas fundações e paredes, acompanhado de registros fotográficos.
Investimentos de R$ 2,54 milhões
A primeira etapa do restauro representa investimento total de R$ 2.549.599,99. Desse montante, R$ 1.999.217,85 correspondem aos recursos financeiros por meio do Pró-Cultura RS, da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, enquanto o Município de Santo Antônio da Patrulha participa com R$ 550.382,14.
O prefeito Rodrigo Gomes Massulo destacou a importância da recuperação do casarão para a preservação da identidade e da memória do município.
“É muito bom ver esse patrimônio tão importante da nossa cidade sendo cuidado e recuperado. O Museu Caldas Júnior faz parte da nossa história, e preservá-lo é garantir que as próximas gerações possam conhecer, valorizar e se orgulhar das suas raízes. É um compromisso com o nosso passado, mas também com o futuro de Santo Antônio da Patrulha”, afirmou Massulo.
Realização, patrocínio e apoio
A primeira etapa do projeto de restauro do Museu Antropológico Caldas Júnior é uma realização da Fundação Museu Antropológico Caldas Júnior, com financiamento por meio do Pró-Cultura e do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, e apoio da Prefeitura Municipal de Santo Antônio da Patrulha.
O projeto conta com o patrocínio de JOAPE, DaColônia Alimentos Naturais, CEEE Grupo Equatorial, Estribo Hotel Estância, Farmácias São João, Maxfort Atacado e Varejo, Arroz Massulo, Borrússia, Gasfort e Realengo.
A participação do poder público e das empresas patrocinadoras viabiliza uma das mais importantes intervenções de preservação já realizadas no imóvel, garantindo condições para que esse patrimônio histórico continue fazendo parte da vida cultural e da memória da comunidade.
Museu segue atendendo durante o restauro
Enquanto o histórico casarão passa pelo processo de recuperação, a Fundação Museu Antropológico Caldas Júnior mantém suas atividades e o atendimento ao público em sua sede provisória, na Avenida Borges de Medeiros, nº 646, garantindo a continuidade das ações culturais, educativas, expositivas e de preservação da memória.
Entre os atrativos disponíveis ao público está a exposição permanente “A Noiva da Lagoa: o crime que virou lenda”, que reúne itens de acervo pessoal e familiar da jovem Maria Luiza Haussler, assassinada em 18 de agosto de 1940, tendo seu corpo sido lançado na Lagoa dos Barros.
Segundo o presidente da Fundação Museu Antropológico Caldas Júnior, Rafael Barcela Gudaites, além de preservar a memória de Maria Luiza, a exposição busca contribuir para uma reflexão contemporânea sobre a violência contra a mulher.
“Ao revisitar um episódio que atravessou décadas no imaginário popular e acabou cercado por narrativas e lendas, propomos um olhar contemporâneo sobre a história de Maria Luiza. Mais do que relembrar o crime, queremos reacender o debate sobre a violência contra a mulher e reforçar a necessidade de ampliar a discussão e a conscientização sobre o feminicídio, aproximando a preservação da memória de uma questão social que, infelizmente, ainda está muito presente na atualidade”, destacou Barcela.
Mesmo durante o período de restauro de sua sede histórica, o Museu segue, assim, cumprindo sua função de preservar, pesquisar e comunicar a história, além de utilizar a memória como instrumento de conhecimento, reflexão e conscientização.
A recuperação do casarão representa, portanto, mais do que uma obra de engenharia e conservação. No ano em que Santo Antônio da Patrulha celebra os 200 anos da passagem de Dom Pedro I pelo município, um dos espaços que ajudam a contar essa história está sendo preparado para atravessar novos séculos, preservando também a memória da infância de Caldas Júnior e um patrimônio que integra a trajetória histórica e cultural de Santo Antônio da Patrulha e do Rio Grande do Sul.