Para o Dr. Cláudio Araújo, o crime é o “resultado final” de um ciclo de posse e violência que precisa ser rompido ainda no início, dentro das escolas e dos lares.
O combate ao feminicídio vai além das salas de tribunal e exige uma transformação profunda na cultura da sociedade, constituindo-se em uma “chaga social” alimentada por uma visão de posse do homem sobre a mulher, com o que concorda o Promotor de Justiça que atua na Comarca de Santo Antônio da Patrulha.
Segundo o Dr. Cláudio Araújo que falou sobre este tema delicado com a reportagem da Folha Patrulhense, o feminicídio é apenas a “ponta do iceberg”. “O que ocorre é uma realidade social interligada. O homem muitas vezes entende a mulher como objeto. Esse comportamento, enraizado no machismo, se manifesta através da violência”, explica. Para ele, a educação é o único remédio definitivo: “Não se ‘cura’ o feminicídio; o que resta é a prisão. O que queremos é evitar a fatalidade através da conscientização nas escolas e nos meios de comunicação”.
O silêncio das “quatro paredes”
Um dos maiores desafios para as forças de segurança é a natureza doméstica do crime. Diferente de delitos como o tráfico de drogas, que ocorrem em espaços públicos e permitem a vigilância da Brigada Militar, a violência contra a mulher acontece, em grande parte, de forma oculta.
“O problema permanece entre quatro paredes se não houver denúncia”, alerta Araújo. De acordo com o Promotor, o Boletim de Ocorrência e o pedido de medida protetiva são os primeiros sinais de alerta que “jogam luz” sobre a situação. Ao ser acionada, a Justiça retira o agressor do anonimato, o que pode inibir a escalada da violência pelo medo da punição. No entanto, ele reconhece as limitações do sistema: “Às vezes, mesmo com medida protetiva e tornozeleira, o homem descumpre. Por isso, a mudança tem que ser na base, na educação”.
O ciclo da violência e a dependência
O Dr. Cláudio Araújo também destacou a complexidade do “convencimento afetivo”, que leva muitas mulheres a retirarem queixas após demonstrações de arrependimento dos agressores. Fatores como a preocupação com os filhos e a dependência econômica são barreiras que mantêm a vítima presa ao ciclo.
O Promotor recorda que a Lei Maria da Penha prevê que a violência não é apenas física. “Ela é psicológica e moral. Começa com a proibição de roupas, xingamentos e humilhações que vão diminuindo a pessoa. Às vezes não deixa marca física, mas a marca psicológica mantém o domínio do agressor”, conclui.
A orientação do Ministério Público é clara: ao primeiro sinal de violência, a mulher deve buscar ajuda para romper o ciclo antes que ele atinja sua consequência mais drástica e irreversível: a morte.