Giovanni Barbieri fala sobre Lisboa, onde mora com o irmão | 2M Notícias

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Giovanni Barbieri fala sobre Lisboa, onde mora com o irmão

Giovanni Barbieri fala sobre Lisboa, onde mora com o irmão

A Folha Patrulhense prossegue com sua série de reportagens internacionais feitas com nossos conterrâneos que estão residindo no exterior.
Nesta semana, será a vez de Giovanni Barbieri, que mora em Portugal. Ele, que reside com o irmão gêmeo Giordanno, fala sobre sua profissão, como é a vida em Lisboa e a tragédia humana da atualidade que é o COVID-19.
FOLHA PATRULHENSE: Tu e o irmão viajaram juntos para Portugal? Quando surgiu essa ideia de buscar aperfeiçoamento no exterior?
GIOVANNI BARBIERI: Não viajamos juntos. Eu cheguei em setembro de 2017 e o meu irmão em março de 2018. Eu decidi fazer mestrado fora do Brasil quando ingressei no curso de música da UFRGS, em 2012. Terminei a graduação em 2016 e em maio do ano seguinte fui à Dinamarca fazer prova para um programa de mestrado na Escandinávia. Descobri que as provas de mestrado aqui em Lisboa eram mais ou menos na época que eu estaria na Europa, então para maximizar as chances de entrada em um programa europeu, apliquei também para Portugal. Fui aprovado nos dois lugares, mas acabei escolhendo Lisboa porque em 2013 já tinha vindo tocar aqui e tinha gostado bastante.
FOLHA: Como tem sido esse aperfeiçoamento na atividade profissional que ambos escolheram?
GIOVANNI: Para mim foi muito importante buscar este aperfeiçoamento porque eu pude ter contato com um ensino de música mais sólido e institucionalizado. Os métodos existentes hoje em dia são conhecidos e dominados há mais tempo aqui na Europa, e isso facilita muito a transmissão da informação. Em relação às atividades profissionais, tenho tido experiências interessantes, pois aqui é possível ter contato com muitos artistas de diferentes lugares, especialmente da África lusófona, e de um modo geral isso enriquece muito a prática musical.
FOLHA: Portugal é o berço de nossa civilização. Os portugueses abordam esse assunto histórico com vocês?
GIOVANNI: Algumas poucas vezes já falei sobre o assunto com alguns amigos, e o que eles me disseram é que por aqui há noção de que o Brasil não foi “descoberto” por eles e que no nosso país existe uma mistura de culturas que vai muito além da cultura portuguesa. Eu noto que há um sentimento quase que de irmandade entre Portugal e todos os países lusófonos, mas em relação ao Brasil o laço parece ser mais estreito.
FOLHA: Pretendem continuar em Portugal ou devem continuar morando no exterior?
GIOVANNI: No momento eu pretendo ficar em Lisboa. Aqui tenho oportunidades de trabalho e uma boa qualidade de vida. Gosto muito de ir a Santo Antônio rever a família e os amigos, e o fato de haver mais de 100 voos semanais diretos de Portugal para o Brasil (e uma parte deles fazer a rota Lisboa-Porto Alegre) facilita bastante a mobilidade e de certa forma torna o desafio de morar longe um pouco mais tranquilo, tanto para nós quanto para a família que está aí em Santo Antônio.
FOLHA: Comparativamente ao Brasil, como é o Ensino em Portugal?
GIOVANNI: O ensino é excelente e as escolas públicas são ótimas (constantemente melhores colocadas do que as escolas privadas nos exames de avaliação do sistema nacional de ensino). A principal diferença entre os sistemas daqui e do Brasil é que aqui (e na Europa em geral) as pessoas financeiramente menos favorecidas estudam nos mesmos colégios que as pessoas das classes mais altas, e no final das contas a única coisa que diferencia os alunos no momento em que entram na universidade é a ambição e a dedicação de cada um, e não o acesso – ou a falta dele – às condições mínimas para disputar a vaga no ensino superior. Em outras palavras e no meu modo de ver, a meritocracia como deve ser. Além de músico eu também sou professor em dois colégios de Cascais, uma cidade da zona metropolitana de Lisboa, e as condições de trabalho são bem diferentes das oferecidas no Brasil. Os salários são tão mais altos que a hora de trabalho de um professor, em alguns casos, pode ser até duas vezes maior do que a de um médico plantonista do sistema nacional de saúde.
FOLHA: COVID-19: a pandemia e o verdadeiro desastre brasileiro: como tu encaraste essa situação longe de tua Pátria? Chegaste a pensar em voltar quando o problema aflorou?
GIOVANNI: Quando foi decretado o lockdown em Portugal eu estava no Rio de Janeiro, prestes a embarcar de volta para Lisboa depois de um show com uma cantora portuguesa, e na última hora pensei em ir para Santo Antônio até que a coisa voltasse ao normal por aqui. No fim não fiquei no Brasil e, tendo em vista o rumo que a pandemia tomou, acho que fiz a escolha certa naquele momento. É claro que o fato de a minha família e os meus amigos estarem aí me preocupa, mas neste momento o melhor a fazer é esperar e seguir as recomendações de quem estuda o assunto.
FOLHA: Os portugueses obedecem às ordens do governo como máscara, higienização das mãos e isolamento social?
GIOVANNI: Sim. Todas as pessoas (e principalmente os governantes) seguem rigorosamente as orientações médicas. Nunca vi ninguém questionar as recomendações dos cientistas. Também não vejo discussões acerca da eficácia de determinados medicamentos.
FOLHA: O que mais gostarias de acrescentar?
GIOVANNI: Eu acho que o que faz da Europa um continente com altos índices de qualidade de vida é principalmente o fato de aqui as pessoas estarem mais habituadas a pensar no coletivo, especialmente aquelas que fazem parte das classes dominantes. Este pequeno e poderoso extrato da sociedade já compreendeu que a desigualdade social gera problemas graves que prejudicam a todos, sem qualquer exceção, e por isso, existe um esforço para combatê-la da forma mais séria possível.