Patrulhense viveu 11 anos na Mongólia com a família e hoje reside nos EUA | 2M Notícias

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Patrulhense viveu 11 anos na Mongólia com a família e hoje reside nos EUA

Patrulhense viveu 11 anos na Mongólia com a família e hoje reside nos EUA

A Folha Patrulhense conversa nesta edição com um patrulhense que residiu durante onze anos na Mongólia.
Elbert Kuhn, natural da localidade de Fazenda Passos, ainda pertencente a Santo Antônio, morou com sua esposa naquele país, que tem uma cultura, costumes, condições climáticas e hábitos totalmente diferentes do Ocidente. Estando próximo à fronteira com a Sibéria, a Mongólia é lendária por ter sido a terra natal do famoso Gengis Khan. Pertencente à Igreja Adventista, Elbert passou por uma dura experiência quanto ao clima, mas se adaptou de tal maneira àquele país, que, mesmo não mais estando lá residindo, tem contatos frequentes com mongóis, tendo inclusive, dois filhos de criação, o que, tanto ele, como sua esposa, consideram uma bênção divina. Eis um pouco da fascinante história vivida por este casal com aquele povo nômade e que hoje reside nos EUA:
FOLHA PATRULHENSE: Elbert: O que te motivou a ir residir na Mongólia, país diametralmente oposto a tudo o que vive no Ocidente?
ELBERT KUHN: O que me levou a sair para fora do país, foi um convite da organização em que trabalho para que eu fosse em 2003 coordenar alguns projetos humanitários e organizar a nossa estrutura de educação de projetos na Mongólia. Não tinha pessoalmente projeto de sair do Brasil, pois trabalhava em Porto Alegre, mas o convite inesperado da organização me levou em 2003 a ir, com minha esposa para aquele país. Ficamos onze anos emulam Bator, a capital da Mongólia em dois períodos assim divididos: o primeiro, de 2003 a 2009 e o segundo, de 2011 até final de 2015. Foi um programa de convite minha organização adventista para elaborar projeto de educação e também estabelecer as estruturas de um projeto humanitário que foi muito grande na Mongólia.
FOLHA: Saiste de um país, onde já tens hábitos enraizados e de repente vocês entram em outro, onde tudo é completamente diferente. Certamente isso representa o choque cultural. Como foi a adaptação?
ELBERT: Foi um período interessante. Conhecia a Mongólia de estudar na escola a história do grande Gengis Kan e tinha na minha cabeça a história de um país nômade mas, sem outra informação. A Mongólia é basicamente habitada por nômades espalhados por todo o país, cuidando especialmente de gado, ovelhas, cabritos e cavalos. Eles têm 30 vezes mais animais do que pessoas no país. Vivem em tendas redondas que são facilmente montadas e desmontadas para terem mobilidade de andarem com os animais para que no verão tenham pasto abundante e para que no inverno os animais passem abrigados do frio.
A Mongólia é o 17º maior país do mundo em extensão territorial e um dos países com clima mais hostil e desafiador que se possa imaginar. Há o deserto de Gobi, parte dele na Mongólia, sendo que durante 6 a 7 meses do ano o país tem temperaturas que vão desde 20 graus abaixo de zero até, em alguns lugares, chegando a mais de 50 graus negativos. É um país em termos climáticos extremamente hostil por ficar próximo à Sibéria com ventos gelados. O local onde se situa a capital é muito frio e essa sensação é extremamente desafiadora. A cultura é diferente porque é um país tradicionalmente budista, e por isso mesmo, as pessoas cultivam a paz, aquela sensação boa de receber bem a todos. Eles são muito hospitaleiros e gostam de conversar bastante. Os mongóis durante muitos anos viveram dessa forma: nômades, sem tanta pressa, sem muito estresse, vivendo seu dia a dia. Durante os anos 1920 mais ou menos durante o período do forte do comunismo, a Rússia não só invadiu vários países do leste europeu, mas também a Mongólia fazendo com que a maioria dos monges fosse presa, muitos sendo mortos, aniquilando-se a tradição bonita e religiosa do país, sendo que o comunismo se estabeleceu de uma forma sem religião.
Até 1990 a Mongólia esteve debaixo do domínio russo e hoje ela oscila muito entre dois costumes: fisicamente são asiáticos, mas culturalmente têm muitas coisas da Rússia em função de todos os anos de domínio russo. Em 1990 com a queda do comunismo, as tropas foram retiradas da Mongólia e ao serem retiradas não apenas a Mongólia ficou sem governo, como sem dinheiro, e sem comida. Pessoas basicamente tinham pão, sal e carne até que lentamente a organização foi sendo restabelecida, mas levou muitos anos até que conseguissem se adaptar à nova realidade sem governo e por muitos anos, eles ficaram num limbo, com os mais velhos com pensamento comunista e os mais jovens querendo ares da liberdade do ocidente, e isso foi por muitos anos uma disputa ideológica dentro do país, mas nunca a ponto de existir guerra civil, ou enfrentamento físico entre grupos, porque o mongol é muito pacífico. E foi nesse período que o primeiro indivíduo da nossa organização foi para lá e algum tempo depois faleceu de câncer no estômago. E logo em seguida, chegamos no período de transição do comunismo para a democracia.
Em 2003 ainda existiam muitas restrições no sentido de falta de alimentos, porque os mongóis não produzem nada de verduras e frutas, sendo um país basicamente se alimentando de muita carne e também é um país que tem um alto índice de consumo de gordura. Se você imaginar os esquimós verão que a gordura traz aquecimento ao corpo. E esses hábitos fazem com que a combinação da expectativa de vida seja bastante curta. Porque consomem muita gordura, muito cigarro e a bebida, sendo o segundo país do mundo com maior consumo de álcool e tudo isso em relação com o frio. Isso faz com que pessoas sofram muito e a causa de morte é relacionada com esses hábitos. É um pouco da cultura do país.
FOLHA: O que mais chamou a atenção na Mongólia?
Elbert: Uma das coisas que mais me chamou a atenção além do frio, e a de ser um país extremamente natural preservando a beleza natural. Viaja-se pela Mongólia que é o 17º maior do mundo vislumbrando cenários incríveis ainda não destruídos pelo desenvolvimento. Lembro que viajando para diferentes lugares você tem desertos, montanhas, lagos, o rosto expressivo do mongol, temos os nômades, a capital que é bastante interessante. Temos a cultura dos monges budistas, temos os xamanistas com suas culturas. É um país ainda virgem. Ao viajar pela Mongólia, parava na imensidão do país para ficar desfrutando as belezas da região. Por alguns aspectos ela lembra a localidade de Monjolo, pois há um pouco do estilo gaúcho: cavalos e animais, essa relação bonita do campo. Não tem as plantações, mas existe uma relação muito próximas aos animais e por isso, me adaptei muito rápido, pois vim da Fazenda Passos, onde cresci tirando leite de vaca, andando a cavalo e tendo uma vida campeira. Já o idioma é extremamente difícil. Consegui entender e compreender muita coisa, mas na função em que estava, o inglês era o cotidiano. Algumas coisas que chamaram atenção: a pureza em que vivem naturalmente, sem estradas. Para me fazer entender, procurei falar utilizando coisas que eles têm conhecimento, como sítios, animais e assim via-se o sorriso estampando-se em seus rostos. E até hoje tenho uma relação muito chegada a eles a ponto de considerar a Mongólia, meu segundo país.
FOLHA: Como é a receptividade do povo mongol?
ELBERT: Os mongóis são um povo nômade, mas extremamente receptivo. A reciprocidade e a hospitalidade são muito grandes porque, para eles, hoje posso precisar de você e amanhã pode ser o contrário.
Essa receptividade manifesta-se, inclusive, na maneira como eles recebem o visitante que pode parar o carro na frente da tenda, que eles abrem a porta e vem nos receber, oferecendo comida, um copo de vodca como uma saudação. Além disso, há um costume que eles usam com os visitantes: um vidro cheio de tabaco que é aberto, a pessoa cheira e fecha. Minha esposa e eu ficamos em um apartamento muito tranquilo, porque é um país onde as pessoas se sentem completamente seguras. Eles apreciam muito o Brasil e mostram conhecimento sobre futebol, a Amazônia, e por serem pessoas liadas ao campo, curtem os grandes rios e grandes florestas. Outros aspectos que chamam a atenção para eles quando se fala no Brasil, são as praias, o carnaval e outras atrações.
FOLHA: Um fato muito importante em suas vidas: os filhos adotivos. Nos fale como isso aconteceu para ti e tua esposa.
ELBERT: Outra coisa que nos marcou: não tínhamos filhos, mas através de uma pessoa que trabalhava conosco, conhecemos um garoto a quem dávamos roupas, calçados e ajuda para comida. Como ele ia e vinha à nossa casa, com o tempo conhecemos sua irmãzinha e essa relação aumentou. Hoje eles têm 11 e 13 anos e são nossos filhos adotivos. Esse foi o maior presente que recebi, durante nosso trabalho de levar a oportunidade de estudo a centenas de jovens e crianças, conhecimentos de agricultura e de estufa. Nossas duas crianças são os dois anjos que Deus colocou em nossas vidas.