Lucas e Priscilla moram no País Basco (Espanha) e falam sobre a pandemia e a experiência que estão vivendo na Europa | 2M Notícias

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Lucas e Priscilla moram no País Basco (Espanha) e falam sobre a pandemia e a experiência que estão vivendo na Europa

Lucas e Priscilla moram no País Basco (Espanha) e falam sobre a pandemia e a experiência que estão vivendo na Europa

O patrulhense Lucas Gomes da Silva é cozinheiro e há oito meses mora com a esposa no País Basco que, segundo a Wikipédia, é o nome dado à região histórico-cultural em que residem os bascos, localizada no extremo norte da Espanha e no extremo sudoeste da França, cortada pela cadeia montanhosa dos Pirenéus e banhada pelo Golfo da Biscaia. Compreende as comunidades autônomas do País Basco e Navarra, na Espanha, e o Iparralde, na França.
A região basca tem uma cultura própria, sobretudo pela língua, o euskara, idioma que os estudiosos não conseguem saber até hoje a origem exata, mas que existiria desde antes dos romanos invadirem a península ibérica, e sustenta um movimento nacionalista desde fins do século XIX. A campanha dos grupos radicais pela independência cresce com a fundação, em 1959, do grupo separatista ETA (Pátria Basca e Liberdade) em plena ditadura de Francisco Franco (g. 1939–1975). Com a Constituição Espanhola de 1978, o País Basco conquista alto grau de autonomia, e a maior parte do movimento depõe armas, criando partidos legais. Os remanescentes da ETA, porém, decidem continuar a sua luta, utilizando a violência como meio de coação e intimidação. E é com Lucas que a Folha Patruhense conversa hoje na série de reportagens sobre a pandemia Coronavírus e como os rapadureiros que moram em outros países têm convivido com essa pandemia mundial.
FOLHA PATRULHENSE: Qual a cidade em que moras e há quanto tempo estás aí?
LUCAS GOMES DA SILVA: Moro no país Basco, região de Guipuzcoa, na cidade de San Sebastian também conhecida como Donostia, região Norte da Espanha que faz divisa com a França (30 minutos). Estamos vivendo aqui há 8 meses, eu e minha esposa Priscilla Souza, somos cozinheiros e estamos fazendo um curso de gastronomia.
A Priscilla já tinha vivido e estudado aqui quatro anos, de 2007 a 2011 e desde que nos conhecemos o plano era vir para cá. Ela sempre foi apaixonada desde que conheceu este lugar e agora eu estou apaixonado também.
Aqui o idioma é o Euskera (Basco) e o castelhano. O pessoal nativo e principalmente os mais velhos e de interior se comunicam entre si só por Euskera, os mais jovens usam mais o castelhano.
FOLHA: Como está a situação da pandemia na atualidade, se levarmos em conta a tragédia que abalou os espanhóis?
LUCAS: Atualmente aqui em San Sebastian, a vida está voltando ao normal aos poucos, em vista do que se passou. Aqui foi uma das regiões mais afetadas pelo vírus da Espanha.
FOLHA: Que medidas o governo está mantendo?
LUCAS: O início da quarentena foi isolamento quase que total. Mandaram fechar todo o comércio, bares e restaurantes, colégios, universidades e as fronteiras, só ficaram abertos os supermercados, farmácias e postos de combustível. Só podíamos sair de casa uma vez ao dia para compras e uma pessoa da família. Diferente do nosso país, as leis aqui são cumpridas, teve pouquíssimos casos de resistência por parte da população. Aqui as punições também não são muito atrativas no que se diz respeito ao bolso e o prejuízo de quem se arriscar a descumprir as normas, a multa varia de 200 a 600 euros e até cadeia.
Agora a vida já está voltando ao normal, o governo estipulou um plano por etapas 0,1,2,3,4.
Na primeira semana da fase 0, liberaram os pais para saírem com as crianças uma hora por dia; na segunda semana liberaram todos com horário estipulado, dividindo a saída entre crianças, jovens e adultos até 45 anos e idosos, e na condição de sair só para fazer exercícios físicos. Agora estamos na fase um que segue o mesmo sistema quanto à saída para esportes. O comércio e os bares abriram as portas, mas com atendimento reduzido e seguindo as normas de proteção.
Nessa segunda-feira (25), começamos a fase 2, que permite ir à praia, fazer esportes a qualquer hora do dia e sair da cidade.
No meu ver aqui a vida já voltou ao normal, o pior já passou, não ouço mais falar em novos casos de contágio (Obs: não assisto TV aberta).
FOLHA: Como tem sido a reação dos espanhóis e de vocês, brasileiros frente à pandemia se levarmos em conta que muita gente continua imaginando ser uma gripezinha como disse o presidente. Como está hoje a situação do ir e vir aí. Há restrições?
LUCAS: Acredito que a reação de todo mundo foi a mesma, desde o princípio: de não acreditar e não levar a sério.
Lembro que em dezembro em uma conversa por telefone com a minha mãe ela disse “filho, te cuida com esse novo vírus que está se espalhando pelo mundo”. E eu respondi: “Mãe, não te preocupa, isso deve ser mais uma notícia para vender jornal”. E assim fomos levando. Aqui em casa não assistimos TV e as pessoas do nosso convívio também não comentavam nada sobre o assunto, até começar a chegar as notícias da Itália. Lembro que fomos para Barcelona no carnaval e de brincadeira quando passávamos por um grupo de chineses, atravessávamos a rua. Passando o carnaval, chegamos em Donostia na quarta-feira, e na sexta-feira saiu o boato que iriam fechar tudo e no sábado, o pesadelo virou realidade.
Desde então, aqui todos respeitaram as medidas impostas pelo governo, que se propôs a pagar um seguro-desemprego e dar apoio financeiro às empresas. A diferença de cultura para a nossa, em relação ao respeito quanto a vida e as leis é muito diferente e não só dos europeus, mas também da maioria dos imigrantes que vive aqui. É muito triste fazer uma comparação com o Brasil e ver que ainda falta muito. Há 10 anos, tive a oportunidade de viver um ano em outro país e vejo que nada evoluiu no Brasil nesse sentido, e de verdade, não tenho esperanças de ver uma mudança aí tão cedo, nesse rumo de ódio que as coisas vão.
Entendo que as condições são diferentes, mas o meu conselho é para não levarem o assunto na brincadeira. Graças a Deus eu não conheço ninguém próximo a mim que passou por isso, mas tenho total noção que não é uma gripezinha. Só tem uma maneira de combater o vírus que é obedecer às normas de proteção. Estando aqui me sinto muito feliz e tranquilo em saber que a minha família está respeitando as recomendações e se cuidando.
FOLHA: Hoje o Brasil está com mais de 20 mil mortos. Aqui no Litoral felizmente temos apenas seis. E no local onde moras como está esta situação?
LUCAS: No País Basco tiveram 13.421 casos e 1.483 mortes até agora.
FOLHA: E sobre a colônia brasileira aí: ela é expressiva?
LUCAS: Aqui em San Sebastian tem poucos brasileiros para uma população de 183.000 habitantes. Conheço pessoalmente umas 20 pessoas, mas na cidade ao total, penso que não tem 100 brasileiros vivendo aqui, sendo que existem muitos imigrantes de todo o mundo, por ser uma cidade universitária, turística, muito conhecida pela beleza arquitetônica, natureza e a gastronomia.Em compensação, nossos hermanos argentinos aqui é chutar uma pedra e saem 10 e não só nessa região, mas em toda Espanha. Acredito que a maior parte de brasileiros está concentrada em Madrid e Barcelona.
Nós temos visto de estudo por dois anos, que é o tempo de curso, e também contrato de trabalho que nos permite ficar por mais tempo.
Nas condições em que está o Brasil, não dá vontade de voltar a viver aí, comparando toda infraestrutura que temos aqui em termos de segurança, qualidade e custo de vida.
Mas o Brasil querendo ou não é a minha casa, aí nossas raízes, família e amigos. Nossos planos são de terminar o curso e se possível ficar mais uns 3 anos aqui para viajar e adquirir experiência profissional, não sabemos se exatamente ficaremos aqui. San Sebastian é referência na gastronomia mundial e onde tem o maior número de restaurantes que estrela Michelin.