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Comunidade abraça a Lagoa dos Barros

Comunidade abraça a Lagoa dos Barros

Numa iniciativa do grupo de ciclistas SAPedal, a comunidade abraçou a Lagoa dos Barros em uma manifestação no último sábado (14), com o objetivo de protestar contra o estado em que a mesma se encontra.
A prefeitura está realizando coletas diárias e entre as hipóteses levantadas pelos especialistas estão os efluentes lançados pela Estação de Tratamento de Esgotos de Osório, mas todas os fatores estão sendo analisados. A lagoa está interditada porque oferece prejuízos à saúde.
O prefeito de Santo Antônio da Patrulha, Daiçon Maciel da Silva e o vice, José Francisco Ferreira de Jesus lembraram que o Município entrou com ação junto ao Ministério Público pedindo a suspensão dos lançamentos e que também já havia pedido o cumprimento da sentença, tendo em vista que os níveis de fósforo estão muito acima do limite permitido. A batalha judicial tentando impedir o lançamento dos efluentes pela ETE osoriense vem desde 2009.

CORSAN DIZ QUE ETE DE OSÓRIO NÃO POLUIU
Na tarde de sábado (14), a Corsan emitiu uma nota informando que a Companhia já reduziu a emissão de efluentes na Lagoa dos Barros, desativou uma estação de bombeamento de esgoto e está transportando o esgoto que chega nela com caminhão para outra ETE.
Textualmente diz a nota: “Em que pese a Corsan não ter responsabilidade sobre o evento, o qual não foi causado pelo lançamento de efluentes tratados oriundos da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Osório, a Corsan adotará todas as medidas para colaborar com o caso. Os primeiros resultados concluíram que o problema foi ocasionado por múltiplos fatores, intensificado pela condição climática com intensa restrição hídrica decorrentes também da estiagem e altas temperaturas. A Companhia já reduziu a emissão de efluentes na Lagoa dos Barros, desativou uma estação de bombeamento de esgoto e está transportando o esgoto que chega nela com caminhão para outra ETE.
Ficou definido também que a Corsan encaminhará ao MP na próxima semana relatório técnico sobre o assunto, salientando que a Companhia monitora a Lagoa dos Barros há mais de 10 anos e sua ETE desde a entrada em operação no fim de 2018.”

LAUDOS SAEM ESTA SEMANA
Conforme o Departamento Municipal do Meio Ambiente de Santo Antônio, nesta semana os laudos conclusivos sobre os estudos realizados devem ser apresentados.
Daiçon disse que o Município não aceitará a poluição da Lagoa dos Barros, que será preciso provar que os efluentes da ETE de Osório não são responsáveis por isso e, que todas as possibilidades continuam sendo investigadas pelo Departamento de Meio Ambiente de Santo Antônio da Patrulha. Ele agradeceu a todos que participaram do ato, ao SAPedal pela ideia e a imprensa, Rádio Itapuí, Folha Patrulhense, TV Pampa e SBT, que fizeram a cobertura do ato, fortalecendo o movimento.

A PALAVRA DOS MORADORES E DE BIÓLOGOS
Dona Nerci Gomes Pereira (72 anos) mora há 52 na Lagoa. “É a primeira vez que eu vejo esse sofrimento. Morei sempre aqui. A água que eu usava, era da Lagoa. Agora tenho poço artesiano. Ontem, sentei aqui e até chorar, chorei. Ela está sofrendo”, disse emocionada dona Nerci.

JOVEM
Ederson Caldeira da Silva tem 19 anos. “Esse problema está afetando todos os moradores e também os comerciantes locais, como é o meu caso. Foi feita a análise da água e agora a gente quer saber como vai ficar isso. Se a gente vai ser indenizado. E se entra na água e fica doente como vai ficar a situação? Trabalho com lanches e agora, cai totalmente o fluxo. No ano retrasado, a Escola Ferreira Viana elaborou um projeto contra o funcionamento da Estação de Tratamento de Esgotos e que até saiu na Folha Patrulhense.”

SAPedal
Márcio Santos fala em nome do grupo SAPedal que organizou o movimento tendo percorrido com mais integrantes do movimento, grande parte da costa que margeia a Lagoa. “Estamos preocupados com a situação. Então nos causou muita apreensão, porque a lagoa tem toda uma importância social para o município. Ela é fundamental para nossa cidade e resolvemos mobilizar o grupo. É para chamar a atenção das autoridades porque não dá para continuar do jeito que está.”

BIÓLOGA DIZ QUE LUTA NÃO VAI PARAR
Sueli Meregalli Lang está na luta pela preservação da Lagoa dos Barros há mais de 40 anos. Forte liderança dentro do movimento Lagoa Viva, ela, que é casada com um produtor de arroz, manifesta indignação com o que está acontecendo e que, se a Justiça não der um “basta” ao que está ocorrendo, fatalmente a Lagoa dos Barros seguirá o mesmo triste fim de outra, de Osório, que está totalmente poluída, exatamente pela colocação de efluentes daquele município.
Estou muito preocupada, pois é uma situação de extrema gravidade. Talvez o leito não saiba sobre os problemas que as cianobactérias podem causar. Existem três tipos: a verde, a azulada e a de pigmentação arroxeada. Uma delas produz toxinas e qualquer ser humano ingerindo essa água poderá ter afetado o sistema nervoso central com paralisia nos músculos, podendo levar à morte por asfixia, tanto ao ser humano, como animal. Há também a bactéria da derme que afeta a pele, causando grandes queimaduras. As toxinas que ficam na água dificilmente poderão ser retiradas por serem muito pequenas e mesmo passando pela estação de tratamento, não conseguem ser retiradas. E há aquelas que afetam o fígado podendo causar hemorragias levando também à morte.
Como a ativação da Estação de Tratamento de Esgotos de Osório, se tornou fator-chave para tudo o que está acontecendo, porque as cianobactérias se alimentam de nitrato e fósforo. Não devemos, por isso mesmo, mascarar a realidade. É um crime ambiental e estamos lutando desde 2009, sem que nada tenha sido feito.

BIÓLOGO JACKSON MÜLLER AVALIA O FENÔMENO
Para o biólogo Jackson Müller, Doutor em Ecologia, com Mestrado em bioquímica. Foi Secretário do Meio Ambiente das Prefeituras de Estância Velha e Novo Hamburgo, e Diretor Técnico da FEPAM, que foi adido do MPE e Diretor Presidente da Fundação Municipal de MA de Gravataí, não há um registro anterior de afloramento tão intenso de que possa ter provocado esse fenômeno. Podem ter sido por efluentes não tratados e esgotos. Por isso, é necessário um procedimento investigativo para apurar se houve descarte irregular de lodo, limpa-fossas, ou de eventos climáticos causados por temperaturas elevadas e insolação ocorridos nesta época do ano.
Mesmo assim o biólogo afirma que ainda não há elementos suficientes para que se possa apurar as causas, porque são condições preliminares que serão devidamente avaliadas através de exames microscópicos.
Em resumo: só depois de uma investigação apurada, é que se poderão apontar as causas, mas o Biólogo defende a necessidade de monitoramento constante para proteger a Lagoa dos Barros.
E alerta: esse fenômeno poderá se repetir nos próximos anos.

POSSÍVEIS CAUSAS
A nota salienta existirem indícios de que após “o início da operação da Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) de Osório, operada pela CORSAN, a qual lança efluente na Lagoa dos Barros, surgiram condições para ocorrência deste evento de floração das águas observada nos últimos dias. Em primeiro lugar, porque a ETE está lançando seus efluentes desde dezembro de 2018 fora dos padrões estabelecidos no estudo de capacidade da Lagoa dos Barros – este estudo foi elaborado pela Fundação Luiz Englert, através do Centro de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no ano de 2015 e propôs que a Lagoa dos Barros teria capacidade de receber o efluente tratado com limite de fósforo a 0,5 mg/L, parâmetro este ratificado em sentença judicial que autorizou a operação da ETE, no entanto, os lançamentos têm sido superiores a este valor desde o início da operação da ETE, com valores superiores ao limite estabelecido no estudo em questão. Outro ponto a ser considerado é o relato dos moradores da região da Lagoa dos Barros, que afirmam nunca terem visto a lagoa do jeito que está. Além disto, fósforo e nitrogênio são nutrientes altamente presentes em efluentes de esgoto. Obviamente a estiagem e o calor contribuíram para esta floração, pois até então podemos dizer que o efluente estava sendo diluído na Lagoa dos Barros e logo no primeiro período de estiagem a floração já foi identificada.”

DEPARTAMENTO MUNICIPAL DO MEIO AMBIENTE
Na nota oficial divulgada na semana passada, o Departamento Municipal do Meio Ambiente afirma que “após análise laboratorial das águas da Lagoa dos Barros, realizada no Museu de Ciências Naturais da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (MCN-SEMA-RS), pela Dra. Vera Regina Werner, foi constatado que as manchas esverdeadas e azuladas na superfície da água e nas margens da Lagoa dos Barros são causadas pela multiplicação excessiva de uma cianobactéria denominada Dolichospermum planctonicum. Nas análises, a especialista também identificou outra cianobactéria (Dolichospermum circinale), porém, de ocorrência rara. Assim, as mudanças na coloração da água e a formação de massas na lagoa dos Barros resultaram da floração (multiplicação excessiva) da cianobactéria D. planctonicum. Tais resultados são provenientes de observações de amostras da Lagoa dos Barros, coletadas periodicamente pelo Departamento de Meio Ambiente do Município de Santo Antônio da Patrulha, desde 6 de março passado.
Estes microorganismos não são algas, pois apresentam ao mesmo tempo características de algas e bactérias, sendo por isso denominadas de cianobactérias. Em condições normais as cianobactérias e os demais organismos aquáticos convivem de modo equilibrado. No entanto, quando há algum tipo de poluente que enriqueça a água, principalmente nitrogênio e fósforo, promovendo a eutrofização das águas, o ambiente torna-se propício à multiplicação excessiva de cianobactérias dando origem às chamadas “florações das águas”, fenômeno que está ocorrendo na Lagoa dos Barros neste momento. Florações de diferentes espécies de cianobactérias são mundialmente conhecidas, causando inconvenientes sanitários, alterando a cor, o cheiro e o sabor das águas, e podendo também conferir toxidez às mesmas, devido ao potencial de produzir hepato, neuro e dermatotoxinas. Estes organismos também podem produzir geosmina, que exala um acentuado cheiro de barro ou mofo, que indica a presença das cianobactérias. A utilização de águas contaminadas por toxinas produzidas por cianobactérias pode ser a causa da mortandade de peixes e de outros animais, assim como de surtos de doenças agudas e crônicas.”




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