Faltam combustíveis e matéria-prima | 2M Notícias

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Faltam combustíveis e matéria-prima

Faltam combustíveis e matéria-prima

Presidente da Fiergs diz que só em 90 dias será possível avaliar extensão dos prejuízos com bloqueios de estradas

Nas cidades, falta de combustível e a ameaça de escassez de produtos, principalmente de leite e derivados. No campo, falta de alimento para os animais e criadores impossibilitados de levar matéria-prima para fazer ração ou mesmo obter a ração pronta. “Conseguiram instalar o caos no Rio Grande do Sul”, descreveu a situação o presidente da Federação das Indústrias do RS (Fiergs), Heitor José Müller. Segundo ele, sem poder ainda levar suínos e frangos para abate, os proprietários terão que fazer o descarte. Rodovias e agora até estradas secundárias permaneciam bloqueadas por caminhoneiros ontem, mesmo depois de uma primeira negociação com o governo. Nas contas da Fiergs havia 75 pontos de interrupção no RS. O dirigente diz que é impossível neste momento quantificar prejuízos, e que serão necessários 90 dias até que isso seja possível. “Talvez se terá uma avaliação a média prazo.”

O presidente da Fiergs lembra que mesmo após encerrada a manifestação nas estradas, os efeitos ainda serão sentidos. Um deles poderá ser a redução de impostos recolhidos, como o ICMS, já que sem transporte não há produtos para comercialização. Na indústria, a mais prejudicada com os protestos tem sido a do setor agropecuário, porque as cargas são perecíveis. Para outras empresas, como as da construção civil, o risco é se faltar matéria-prima como cimento e barras de ferro. Mas há dificuldades ainda com embalagens e peças para manufatura. Para Müller, as indústrias, que já têm sido penalizadas com o baixo crescimento da economia, podem enfrentar situação ainda mais difícil. “Vai ter empresas fechando.”

O dirigente diz que o quadro se agravou porque se antes os motoristas ainda conseguiam escoar a produção usando estradas alternativas, em algumas localidades, agora já não conseguem mais porque começaram a ser bloqueadas também. O empresário manifesta ainda como agravante a falta de uma liderança com quem o governo possa negociar e dar fim à manifestação.

Depois de acompanhar parte da reunião de negociações entre caminhoneiros e os ministros da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, dos Transportes, Antônio Carlos Rodrigues, e pela ministra da Agricultura, Kátia Abreu, nesta quarta-feira à tarde, o dirigente dava como certa a decisão de volta à normalidade. Não foi o que aconteceu.

Somente ontem, pelo menos 4 milhões de litros de leite não chegaram à indústria gaúcha de laticínios para processamento, conforme o presidente do Sindilat-RS, entidade que representa o setor, Alexandre Guerra. É a mesma situação dos últimas dias. E como a indústria no RS deixa de industrializar, em média, 13 milhões de litros por dia, deixa também de abastecer mercados locais e de outros estados, perdendo espaço. “Quem vai pagar nosso prejuízo?”, questiona. O sindicato alerta à população sobre essa possível falta de produtos e elevação de preços em função de menor oferta.

Paralisação na ERS 153, em Passo Fundo (Foto: Dariley Dos Santos)

Paralisação na ERS 153, em Passo Fundo (Foto: Dariley Dos Santos)

Interior quase sem combustível

Há também falta combustível nos postos gaúchos, à exceção da região metropolitana de Porto Alegre, onde transportadores buscam a carga em refinaria e distribuidoras do entorno e conseguem levá-la aos postos sem que haja bloqueios nos acessos. O presidente do Sulpetro-RS, entidade que representa os postos no Rio Grande do Sul, Adão Oliveira, afirma que a corrida para abastecer, em regiões onde os combustíveis estão escassos, também acaba resultando em falta dos produtos. “Quem está com meio tanque corre para colocar mais”, constata. Outra consequência é a elevação dos preços, em alguns casos. Embora essa informação tenha chegado ao sindicato, Oliveira lembra que a entidade é proibida por lei de interferir em relação a valores cobrados. Em geral os postos trabalham com estoques suficientes para 48 ou 72 horas, embora novas cargas sejam recebidas diariamente.

De acordo com o Oliveira, nos Vales do Rio Pardo, Taquari e Serra, onde até esta quarta-feira os postos ainda contavam com abastecimento normal, a situação piorou depois do bloqueio da BR-386 por caminheiros em manifestação. Mesmo em regiões do interior onde o combustível chega da Grande Porto Alegre por trens, quem depende de caminhão para fazer o traslado da carga até os postos, está com escassez ou falta de produto. Os trens saem cheios e chegam a três bases no Estado, em Passo Fundo, Santa Maria e Cruz Alta. O combustível até pode chegar à Santa Maria, mas não a cidades do entorno, que dependem, então, de caminhões. “Na região de Passo Fundo, das Missões e de Santa Maria começou a faltar na quarta-feira”, indica.

Entre 40% e 50% do combustível comercializado na rede de postos tem o interior como destino. O restante fica na capital e cidades próximas. Em todo o RS são, em média, 200 mil litros vendidos ao consumidor a cada mês, algo em torno de 7 mil a 8 mil litros ao dia.

19 ações judiciais até agora

Desde o começo das manifestações nas estradas, há três dias, 19 ações já foram ajuizadas na Justiça Federal do RS. As subseções de Santo Ângelo, Carazinho, Santa Rosa, Palmeira das Missões e Pelotas decidiram dois processos cada uma. O Judiciário concedeu também liminares em Capão da Canoa, Caxias do Sul, Cruz Alta, Passo Fundo, Porto Alegre, Rio Grande, Santa Maria e Uruguaiana. Conforme a Justiça Federal, a determinação de desbloqueio vale para todas as autopistas localizadas nessas regiões. Houve ainda uma desistência em ação em Lajeado. Ajuizaram as ações a Advogacia-Geral da União, Sindilat-RS e uma empresa. Todos argumentam a impossibilidade do livre transporte de pessoas, insumos e mercadorias.

Texto: Thamy Spencer | Repórter Especial JG/ADI