Vila da Paz: esquecida em Cachoeirinha | 2M Notícias

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Vila da Paz: esquecida em Cachoeirinha

Vila da Paz: esquecida em Cachoeirinha

por Dijair Brilhantes

O Bairro Vila da Paz foi o escolhido desta semana para mostrar seus problemas na série sobre bairros, do jornal Correio de Cachoeirinha.

Conhecido pelo seu auto índice de violência, a Vila da Paz é mais uma vítima do decorrente inchaço populacional das grandes cidades. Este processo de urbanização territorial, a falta de espaço e principalmente a especulação imobiliária, fazem com que os cidadãos de baixo poder aquisitivo procurem espaços livres e sem as devidas condições de urbanização. Áreas verdes e locais com antenas de alta tensão viram opções. Esses locais costumam ser de maior risco.

Basta entrar pelas ruas esburacadas de chão batido, para notar que o estado não presta assistência alguma, faltam condições mínimas para um ser humano viver com dignidade.

 As ruas esburacadas de chão batido, demostram o visível descaso do poder público com a região.  Autoridades não prestam assistência alguma na região. Moradores dizem que são lembrados somente durante o período eleitoral, quando recebem diversas visitas dos candidatos.

As ruas esburacadas de chão batido, demostram o visível descaso do poder público com a região. Autoridades não prestam assistência alguma na região. Moradores dizem que são lembrados somente durante o período eleitoral, quando recebem diversas visitas dos candidatos.

Reciclando

Parte dos moradores do local vive da coleta de material reciclado. Gentil Silveira, de 53 anos, trabalha coletando material reciclado pela cidade, desde a morte de sua esposa, há 8 anos. “Esse carrinho era da minha esposa, quando ela faleceu eu tive que parar de trabalhar em empresas por causa dos filhos, daí comecei a fazer esse trabalho”, conta Gentil Silveira.

Sobre o sustento, o morador do bairro diz não ter queixas. “Não posso reclamar, o dinheiro que eu ‘tiro’ aqui, eu não iria ganhar trabalhando em uma empresa”, diz Gentil.

O trio Gentil Silveira, João de Mattos e Pedro Irani, trabalham coletando material reciclável pelas ruas de Cachoeirinha. Cobre, ferro, plástico, papelão e alumínio estão entre os itens que costumam encher os carrinhos. Atividade traz o sustento das famílias

O trio Gentil Silveira, João de Mattos e Pedro Irani, trabalham coletando material reciclável pelas ruas de Cachoeirinha. Cobre, ferro, plástico, papelão e alumínio estão entre os itens que costumam encher os carrinhos. Atividade traz o sustento das famílias

Esgoto

Pela extensão da rua conhecida como Beco do Sesi, a reclamação dos moradores é a mesma, a falta de encanamento de esgoto. Os moradores tiveram que optar por fazerem os chamados poços negros (Buraco profundo, onde a água do esgoto é depositada). A medida compromete a segurança, já que o terreno pode ceder e ocorrer um acidente. “Fiz um poço negro, mas ele já está enchendo, eu não tenho espaço para fazer outro, qual a solução? Me falaram para fazer um cano e largar ao lado da casa, mas ninguém vai aguentar o cheiro”, lamenta João de Mattos, de 56 anos, quatorze deles vividos na Vila da Paz.

A esposa de João, Maria da Rosa, diz que ela sofre com o cheiro de esgoto no quintal de casa. Segundo ela a situação se complica durante os finais de semana quando ela recebe visita dos netos es familiares. “As crianças  vem pra cá nos fins de semana, e sempre recebo uma visita, estes dias fomos almoçar, e estava um cheiro horrível de esgoto”, reclama Maria.

“Este beco é isolado da cidade, ninguém lembra que a gente existe, só queremos ter o direito a esgoto”, lamente Maria.

A falta de encanamento de esgoto faz com que moradores precisem arrumar outras opções para que a água não seja descartada á céu aberto. Em algumas residências o fato é inevitável

A falta de encanamento de esgoto faz com que moradores precisem arrumar outras opções para que a água não seja descartada á céu aberto. Em algumas residências o fato é inevitável

Chuvas     

Sem serviço de esgoto e saneamento básico, moradores reclamam que após as chuvas o pátio das residências e os becos estreitos da Vila da Paz ficam alagados por dias. “Não há escoamento de da água das chuvas, eu pedi para a prefeitura um caminhão de aterro, pois quando chove eu fico presa dentro de casa, porque alaga tudo” , queixa-se Leila Pereira.

Do mesmo problema sofre Pedro Irani, morador da Rua Beco do Sesi, que mostra o valo que ele mesmo teve que fazer para a  água das chuvas que fica empoçada no terreno. “Ergui meu assoalho uns trinta centímetros do chão, porque apodrece tudo”, conta Pedro.

Pedro, que também trabalha coletando material reciclado, diz já ter solicitado as autoridades um caminhão de aterro. “Eu já pedi um caminhão de aterro para acabar com esse problema, mas nem um carrinho de terra me mandaram”, diz Pedro. “Não é fácil para um ‘carrilheiro’ (puxador de carrinho)”, sorri o morador.

Luz

Em algumas regiões do bairro Vila da Paz a luz deixou de ser clandestina, postes e fios de energia elétrica foram instalados. Alguns moradores continuam com a luz de forma ilegal por não terem condições de pagar pela instalação. “Os funcionários da RGE vieram até aqui, e me disseram que eu teria que comprar dois postes, para poder ligar minha luz. Eu não tenho condições financeiras de comprar dois postes”, diz Leila Pereira, que atualmente está desempregada.

Leila foi até a prefeitura da cidade para tentar achar uma solução para conseguir os postes, mas não obteve sucesso. “Eu fui na prefeitura para tentar arrumar os postes, eles me mandaram  procuras o Cras, lá eles me disseram que não tem nada  a ver com isso, o que eu faço?”, questiona. Na casa moram Leila e os dois filhos, um de 15 e outro de 20 anos.

Violência

Segundo os moradores o local é tranquilo, não há problemas de violência no bairro. “Aqui é bem tranquilo, não tem problemas de violência, a polícia passa frequentemente por aqui”, diz Pedro, um dos moradores.

No último dia 8, um morador da Vila da Paz foi assassinado há poucos metros da entrada do bairro, o crime segue sob investigação da 1º Delegacia de Polícia.

Segundo o Investigador Rafael Teixeira, da 1º DP, o bairro ficou mais tranquilo após a prisão de dois dos maiores criminosos da cidade em novembro do ano passado. Na ocasião, foram presos Josenildo Tiago da Silva, o Nito, de 20 anos, conhecido como matador do tráfico, e Pedro de Souza Couto, o Pedro Bomba, 48 anos, também acusado de uma série de homicídios.