Um olhar para o esquecido | 2M Notícias

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Um olhar para o esquecido

Um olhar para o esquecido

por Dijair Brilhantes

A protagonista desta semana do Jornal Correio de Cachoeirinha é Marileide Carvalho, de 50 anos, que começou a olhar para quem era esquecido. Oriunda da pequena cidade de Arvorezinha, interior gaúcho, a protagonista decidiu em certo momento da vida que deveria ajudar aos mais necessitados. Primeiro foram as crianças, depois o moradores de rua. Para ajudar, Marileide acha que precisa de muitas coisas, mas a vontade é o mais importante. “É bem difícil, não dá para dizer que é fácil, mas quando se quer, se consegue”, diz a protagonista.

O começo 

Neide, como Marileide prefere ser chamada, mora há 26 anos no Jardim Betânia e ao ver as necessidades financeiras que algumas crianças do bairro passavam durante as datas comemorativas a moradora resolveu ajudar. Há 15 anos, Neide começou a organizar ações de natal. “Eu comecei organizando festas de natal com refrigerantes e cachorros quente” explica a protagonista de hoje. Depois do Natal foi a vez do dia das crianças: Neide começou a realizar ações também no dia 12 de outubro. “Não distinguimos ninguém, pra mim criança é criança, e não importa se elas são de famílias com dinheiro ou não”, conta.

Segundo a protagonista hoje em cada uma das festas realizadas por ela cerca de mil crianças participam.

Era pouco

As ações de Neide acabaram sendo agraciadas e reconhecidas pela comunidade. Segundo ela, hoje alguns moradores do bairro a procuram meses antes nas festas para lhe perguntar o que eles irão fazer. “Quando começam a se aproximar as comemorações, eles (os vizinhos) já vêm me perguntar o que vamos fazer”, conta Neide, sorrindo.

A protagonista ainda achava que poderia fazer mais. Em junho de 2014, haviam jovens da Igreja Adventista, amigos de sua filha, que estavam reunidos em sua casa, e tiveram a ideia de fazer uma refeição para distribuir aos moradores de rua. “Eles tiveram a ideia ficaram empolgados, eu resolvi entrar na história porque gosto de ajudar as pessoas”, explica Marileide.

Neide diz que no início tudo era uma festa, os jovens ajudaram a arrecadar os alimentos, prepararam, foram às ruas fizeram as doações, depois tudo foi se dispersando. “No inicio foi fácil, todos pegaram juntos, com o tempo vai se tornando cansativo, hoje só eu e o Marciel (um amigo) que fizemos tudo”, explica a protagonista. “Vários ajudam, mas não demora muito desistem”, conclui. Todas as sextas-feiras quarenta moradores de rua recebem uma quentinha. O cardápio varia conforme as doações recebidas. “Às vezes arroz, outras vezes massa, galinha ou carne de gado, depende do que recebemos de doação da comunidade”, explica Neide. O único prato que é excluído das doações é a sopa. “Eu não levo sopa, eles ficam o dia todo sem comer nada e a sopa não alimenta”, diz Marileide.

Neide arrecada caixas de leite vazias para usar como viandas. Foi a forma encontrada por ela para economizar. Moradores e comércio do Bairro Jardim Betânia colaboram com a ação

Neide arrecada caixas de leite vazias para usar como viandas. Foi a forma encontrada por ela para economizar. Moradores e comércio do Bairro Jardim Betânia colaboram com a ação

As doações são feitas em toda a extensão da Av. Flores da Cunha, após o fim da via, a dupla atravessa a ponte e seguem pela zona norte de Porto Alegre até acabarem as 40 viandas da noite.

Dificuldades

Segundo a protagonista, diversas dificuldades já a fizeram em pensar em desistir, ou “dar um tempo”, como Neide prefere dizer. “Tem vezes que pensamos em desistir, pois não sabemos como iremos conseguir mantimentos para poder continuar as doações”, explica. Mas saber da dependência das pessoas é um fator que motiva ainda mais ao trabalho. “Na semana passada eu não tinha nada para fazer, e pensei, vou tirar um frango que seria do consumo da minha família e depois eu ia ver o que fazia, mas daí um rapaz que me devia um dinheiro há muito tempo veio me pagar”, diz Neide. “Não é para eu desistir mesmo”, complementa.

Neide diz que mesmo com tantas dificuldades ela entende ser imprescindível para a população que vive nas ruas um prato de comida, por isso há quase um ano toda a sextas-feiras entrega 40 viandas na Av. Flores da Cunha

Neide diz que mesmo com tantas dificuldades ela entende ser imprescindível para a população que vive nas ruas um prato de comida, por isso há quase um ano toda a sextas-feiras entrega 40 viandas na Av. Flores da Cunha

A família    

Neide diz que sofre algumas contestações dos filhos, mas nada que prejudique o trabalho social que ela optou por fazer. “Elas (filhas) me falam às vezes ‘mãe tu está se envolvendo demais, dá um tempo’, mas eu não dou muita bola, sei que as pessoas precisam da ajuda da gente”, falou viúva, que tem três filhas. Ela ainda diz que vê muita discriminação com os moradores de rua. “As pessoas tem a mania de ajudar e ficar questionando eles, porque estão ali, nós não questionamos e não julgamos ninguém, se eles querem falar a gente ouve, senão querem não perguntamos”, falou.

Trabalho remunerado

Marileide diz já ter recebido propostas para trabalhar com políticos no município, mas prefere não aceitar. “Já recebi proposta para ser CC (cargo comissionado), assessora, mas não quero, para mim trabalho voluntário não pode ser remunerado” disse a protagonista. Segundo ela as festas de natal e dia da criança também já foram cobiçadas pelos vereadores de Cachoeirinha. “Eles já vieram aqui querendo ajudar, mas queriam definir a data devido a uma eleição que se aproximava, isso eu não aceitei, querem fazer a festa deles podem fazer, mas não vão fazer cortesia com meu chapéu”, conclui a protagonista.