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Por pouco incêndio não se transforma em tragédia

Por pouco incêndio não se transforma em tragédia

por Dijair Brilhantes

Na manhã de ontem, 10, um incêndio de grandes proporções assustou os moradores do Bairro Jardim América. Por volta das 08h45min da manhã, um dos quartos de um prédio residencial localizado na Rua Campos Salles pegou fogo.

O local serve como alojamento para cerca de 180 trabalhadores que atuam na ampliação da Celulose Riograndese, todos eles funcionários da empresa Irmãos Passaúra, que presta serviço na cidade de Guaíba.

George Nogueira disse que estava no quarto que pegou fogo no momento que o incêndio começou. “Eu só vi que um dos ventiladores que estava fixado na parede caiu em cima de uma das camas”, ainda em estado de choque, o piauiense diz que com a queda do ventilador os fios arrebentaram e a energia caiu. “Quando a luz voltou deu um curto circuito e o fogo começou”, lembra George.

Socorro

O incêndio logo se espalhou pelos corredores do 3º andar do alojamento. Os moradores presentes no local viveram momentos de pânico. “A fumaça tomou conta do quarto e do corredor muito rápido, não dava para enxergar nada”, conta uma das vítimas.

Sete ocupantes de um dos quartos do 4º andar, não conseguiram descer a as escadas devido às chamas, e resolveram subir para o terraço. Um voluntário trouxe uma escada para ajudar no socorro.

Em pânico, sem conseguir sair de um dos quartos, um dos alojados pulou pela janela do 3º andar e sofreu ferimentos leves nas pernas e braços.

George diz que para sair do quarto ele precisou da ajuda de uma toalha, que serviu como máscara para evitar que ele inalasse a fumaça. “Eu enrolei uma toalha no rosto e desci, foi à única maneira que eu encontrei para evitar respirar a fumaça”, diz George.

Um jovem de 18 anos que vivia no lugar conta que o incêndio se alastrou muito rápido. “Eu só vi quando a lâmpada estourou, e eu vi a cama toda queimada. Eu fui lá e pulei a janela” conta o jovem amapaense, ainda em estado de choque.

Incêndio teria sido provocado por um curto circuito na rede elétrica, o que deve ser confirmado em 30 dias no laudo da perícia. Bombeiros levaram cerca de uma hora e meia para apagar as chamas. (Felipe Leduíno / Arquivo Pessoal)

Incêndio teria sido provocado por um curto circuito na rede elétrica, o que deve ser confirmado em 30 dias no laudo da perícia. Bombeiros levaram cerca de uma hora e meia para apagar as chamas. (Felipe Leduíno / Arquivo Pessoal)

Pânico

Uma das funcionárias que trabalha fazendo a limpeza do local, diz que elas estavam no térreo, e que casualmente ela e as colegas se atrasaram para chegar no trabalho neste dia. “Como chegamos atrasada, ainda estávamos no térreo, só ouvimos a gritaria dos guris, e eles empurrando uns aos outros para descer a escada, foi horrível”, relata a funcionária.

“Eu vi todos desesperados, quando eu abri a porta tinha muita fumaça, e muita gritaria, foi desesperador”, explica um funcionário. Algumas portas foram danificadas devido ao empurra-empurra de pessoas querendo sair do local.

Condições

Alguns dos trabalhadores relataram à reportagem que o alojamento não tinha boas condições para moradia, que havia muitas pessoas habitando os quartos. “Não podemos dizer que as condições do lugar aqui são boas, porque não são”, ressalta um morador.

Segundo um dos funcionários que trabalha como mecânico, na Celulose Riograndense, cada quarto do alojamento abrigava dez pessoas. “É apertado, dez camas em um quarto e apenas um banheiro, vivemos apertados”, lamenta o mecânico de 44 anos.

“Fiscais do Ministério do Trabalho compareceram aqui, mas não subiram nos quartos, a empresa foi lá e limpou todo o andar de baixo e disse que todos os quarto eram limpos e amplos iguais a térreo, e eles aceitaram”, conta outro funcionário.

 

Quarto ficou totalmente destruído devido as chamas. Trabalhadores que moravam no local tiveram roupas, documentos e pertences queimados pelo fogo. Empresa promete ressarcir prejuízo dos funcionários

Quarto ficou totalmente destruído devido as chamas. Trabalhadores que moravam no local tiveram roupas, documentos e pertences queimados pelo fogo. Empresa promete ressarcir prejuízo dos funcionários

O sindicato

Após o incêndio os trabalhadores que vivem no alojamento reclamaram com membros do STICC – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de Porto Alegre -, que atua em Cachoeirinha e Gravataí. “O sindicato é fraco, nunca veio até aqui”, disse um dos trabalhadores ao membro do STICC. O representante da entidade ainda disse desconhecer que havia aquele alojamento no local, o que causou revolta dos trabalhadores. “Tu não pode dizer uma coisa dessas, é um absurdo, só eu estou aqui mais de um ano”, disse um trabalhador revoltado.

Segundo Jean Pereira Santana, presidente do STICC, das bases de Gravataí e Cachoeirinha, o sindicato faz costumeiramente visitas nos alojamentos. “Vamos com alguma frequência nos alojamentos vistoriar, e o alojamento tinha aval do Ministério do trabalho para funcionar”, explica o presidente. Jean ainda diz que não parece ter havido negligencia no caso. “Não faltou fiscalização, o que ocorreu foi um acidente”, conclui Jean.

Prejuízo

Conforme os representantes da Irmãos Passaúra Montagem e Manutenção, a empresa irá ressarcir o prejuízo de todos os funcionários. No incêndio, roupas, documentos eletrônicos e objetos pessoais foram destruídos. “Não tenho nada, pegou fogo em tudo, estou até sem documentos”, lamenta um morador piauiense.

Os funcionários foram alocados em outro alojamento na cidade, localizado na Rua Papa João XXIII, onde segundo a empresa há apenas 15 moradores atualmente morando no local. “A ideia é deixar eles lá até vermos o que iremos fazer com mais calma”, disse a representante da Irmãos Passaúra.

Bombeiros

Conforme o Sargento Bernardes Rodrigues da Silva, do Corpo de Bombeiros de Cachoeirinha, será preciso o laudo da perícia para afirmar as causas do incêndio. O relatório deve sair em cerca de 30 dias.

Os Bombeiros levaram em torno de uma hora e meia para apagar as chamas. “Foi um trabalho bem difícil, a fumaça tomou conta do local, o que dificultou”, explica o Sargento.

Impasse

No fim da tarde de ontem os trabalhadores e a empresa Irmãos Passaúra entraram em um impasse. Segundo os funcionários o local que a empresa arrumou para realoca-los não comporta os 180 homens. “Como vamos dormir, empilhados um em cima do outro?”, questionou um funcionário.

Era mais de 18 horas quando os funcionários não sabiam onde dormiriam, o que iriam comer no jantar e onde colocariam seus pertences. “Vão simplesmente nos deixar aqui, onde vamos guardar as coisas?”, indagou um dos profissionais.

“É provisório, vocês precisam entender que ocorreu um fato que não é normal, amanhã daremos um jeito de achar um alojamento que sigam a NR (Norma Regulamentar)”, explicou a representante da empresa.

“Sabemos como é esse provisório, amanhã passa e ninguém resolve, daí falta uma coisa, a gente pede e mandam esperar, e assim vai”, falou um funcionário.

Você leu no Correio de Cachoeirinha

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Na edição 470, do dia 8 de dezembro de 2014, o jornal Correio de Cachoeirinha publicou uma matéria contando sobre a vida dos trabalhadores que moravam no prédio que pegou fogo na manhã de ontem, 9.

Vindos de diversos Estados do Nordeste brasileiro, os cerca de 180 operários deixam família e amigos para trás com a missão de buscar o sustento da família, mesmo que à distancia.

Espalhados por diversos pontos da Região Metropolitana, os homens que trabalham para construir o futuro, formam uma verdadeira República Nordestina no Rio Grande do Sul.