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Por ele e pelos outros

Por ele e pelos outros

por Dijair Brilhantes

O personagem da série Protagonistas da Vida desta quinta-feira, 5, do jornal Correio de Cachoeirinha, vem contar a história de Gilberto, uma pessoa que teria diversos motivos para ficar em casa queixando-se da vida, mas resolveu ser protagonista, não apenas na própria vida, mas na vida alheia.

Em 26 de setembro de 1962, nascia no município de Alvorada um menino, com corpo frágil, portador de paralisia infantil geral, a quem foi dado o nome de Gilberto de Oliveira Eilert, o caçula entre os três irmãos.

Com uma doença considerada incurável, a mãe de Gilberto resolveu recorrer à fé. Igrejas, terreiros, e simpatias foram alguma das tentativas para tentar reverter o quadro do filho mais novo. Com nove meses de vida, Gilberto passou a conseguir sentar-se e mexer os braços, algo considerado um milagre, pois a ciência pouco explica o fato. “Não dá pra saber o que ajudou, talvez a fé da minha mãe, ou um pouco de cada religião”, conta Gilberto.

Dificuldades 

O protagonista diz ter enfrentado inúmeras dificuldades, no seu corpo a marca de 15 cirurgias demostram parte delas. Segundo Gilberto, um dos procedimentos cirúrgicos serviu para colocar uma placa de platina por toda sua coluna vertebral. “Como eu vivia andando na carona da bicicleta de um dos meus amigos, minha coluna foi entortando, até chegar ao ponto de não voltar mais”, explica Gilberto, que teve que ficar um ano e dois meses com a coluna engessada.

Gilberto diz ter estudado em um internato, lá teve que aprender a se virar sozinho. “Naquela época eu não tinha cadeira de rodas, se acontecesse de urinar na cama, as freiras me botavam numa banheira com água gelada para tomar banho”, conta o protagonista.

Trajetória

O personagem desta semana diz não ter tido uma boa relação com o pai, devido à deficiência ele sofria rejeições. “Meu pai passava por mim e me via deitado no chão e me chutava dizendo ‘sai daí aleijado’. Sofri bastante com isso”, lamenta. Mesmo com alguns ressentimentos da infância, Gilberto não guardou mágoas dos maus tratos cometidos pelo pai. “Os últimos dois anos de vida do meu pai quem ficou com ele fui eu, meus irmão não quiseram cuidar dele quando estava doente, daí eu trouxe para cá e cuidei dele até ele falecer”, diz Gilberto.

Cachoeirinha   

Em 1975, Gilberto encontrou outros cadeirantes pelas ruas de Cachoeirinha que tinham uma associação para deficientes. Lá ele começou a trabalhar nas ruas vendendo balas e doces. Percorreram o estado todo comercializando as guloseimas, até que conseguiu um terreno cedido para a prefeitura onde criou a União Nacional de Amparo ao Deficiente Físico, no Bairro Granja Esperança. “No início veio eu, e mais dois deficientes físicos para cá, o espaço era pequeno, hoje depois de muito trabalho, olha o que conseguimos construir”, sinaliza Gilberto, orgulhoso da casa que consegui fazer.

Associação

Hoje na associação vivem oito deficientes físicos, sem nenhum tipo de convênio com o poder público, a casa vive através de doações de empresas e comércios, além do salário mínimo ‘cobrado’ para a estadia de cada morador. “Muitos me dizem por aí: ‘como tu cobra só um salário mínimo? Isso não dá lucro algum’. Eu respondo que não é para dar dinheiro, é para nós todos conseguirmos viver juntos”, explica Gilberto.

O presidente da associação diz que em alguns momentos ele pensa em desistir devido a tantas dificuldades. “Tem horas que a vida é dura, dá vontade de desistir de tudo, mas onde eles vão morar?”, questiona. Gilberto diz que certa vez um morador da associação faleceu em seus braços. “Ele estava muito doente, eu tinha acabado de dar banho nele quando ele morreu, foi muito triste”, lamenta.

Inspiração

Gilberto prefere levar a vida olhando o lado bom que ela proporciona, sem lamentações, diz que tudo que faz é pensando no bem estar de todos, e vê no filho a inspiração para continuar lutando. “Não existe felicidade, existe momentos bons, meu filho é minha inspiração, tudo que eu faço é pensando nele”, diz o presidente da associação.

Gilberto diz não querer nenhum tipo de envolvimento com politica partidária. “Sou amigo do vereador Tino. Ajudei ele nas eleições, mas não quero nada em troca”, conta. “Eu ajudo porque sou ajudado, sempre que tenho comida ou roupas demais eu repasso para alguém, por isso não quero me envolver com política”, complementa o cadeirante.

O protagonista desta semana tem uma verdadeira história de vida, são tantas lições que não cabem em uma página de jornal. No encerramento da entrevista para essa matéria Gilberto proferiu uma frase que demonstra bem como ele é na vida. “A vida é boa, basta saber levar, estamos no mundo para servir de exemplo a alguém”, finaliza.