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Pelo direito de voltar a sonhar

Pelo direito de voltar a sonhar

Após terem perdido o pouco que tinham em 2010 durante um forte terremoto que devastou a Capital de Porto Príncipe, grupo de haitianos vem para o Brasil em busca do direito de voltar a sonhar com uma vida digna

por Dijair Brilhantes

Desde 2010, a imigração de haitianos que deixaram a terra natal com destino ao Brasil vem ganhando força. Naquele mesmo ano, um forte terremoto deixou mais de 300 mil mortos e devastou parte do país, principalmente a capital, Porto Príncipe.

Ao chegar ao Brasil eles vêm em busca de uma vida melhor e de poder ajudar familiares que ficaram para trás, há milhares de quilômetros.

Estes imigrantes costumam sair da capital haitiana, e vão de ônibus até Santo Domingo, capital da República Dominicana. Lá, compram uma passagem de avião e vão até o Panamá. Da cidade do Panamá, seguem de avião ou de ônibus para Quito, no Equador. Alguns fazem o trajeto mais fácil, como é o caso de Yves Pamphiile: no dia 30 de outubro de 2013, ele embarcou em um avião em Santo Domingo, fez uma escala em São Paulo até chegar a Porto Alegre. “Vir de avião custa mais barato e é mais seguro, mas o visto demora muito tempo, quase um ano”, conta Yves. Toda essa burocracia faz com que a maioria opte pelo transporte clandestino. “Tu vai até a Republica Dominicana, lá tu pega um avião para o Equador, (não necessita de visto), depois um “atravessador” te põe num ônibus para a Argentina de lá para o Peru, e ficam te levando para todos estes países até acabar o dinheiro, depois disso te colocam no Brasil”, explica. O primeiro contato com o solo brasileiro começa na capital do Acre, Rio Branco. De lá cada um escolhe seu destino, normalmente vão para um local onde já há um amigo. Cerca de 4 mil quilômetros separam Rio Branco de Porto Alegre. Para Yves, as dificuldades não estavam na viagem e sim na estadia.

“Pensei em voltar”

Yves não pensava em vir para o Brasil, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas, a distância era um empecilho, já que ele tem quatro filhos, sendo que um deles o haitiano não teve a oportunidade de conhecer, já que nasceu no dia de sua chegada ao Brasil. “Nunca pensei em vir para o Brasil, vim porque um amigo que já estava aqui me pediu para fazer o favor de levar outro amigo até a República Dominicana para tirar o visto, como eu já tinha o meu, vi uma oportunidade”, esclarece o haitiano.

Quando chegou a Porto Alegre depois de uma rápida escala em São Paulo, Yves, foi recebido pelo seu amigo conterrâneo Jackisim Etemne, que o incentivou a vir morar em terras tupiniquins, mais precisamente no pampa gaúcho. O haitiano hospedou-se na casa do amigo, que o levou para fazer a documentação necessária para poder trabalhar no novo país. Yves sentiu o peso da solidão, por alguns momentos se sentiu totalmente perdido, não sabia o que fazer. “Quando eu cheguei fui bem recebido, meu amigo me ajudou, mas como ele já tinha emprego ele não tinha tempo para ficar comigo o dia todo, tive vontade de entrar no primeiro avião e voltar para casa”, lembra.

Sem dinheiro para comprar a passagem para retornar ao Haiti, Yves resolveu ir às ruas procurar emprego. Com vasto conhecimento nas áreas de construção civil, o novo habitante do sul do Brasil fez um cartão de visitas, nele constavam os serviços de colocação de azulejos, pintura, hidráulica e elétrica. O plano não surtiu efeito, ninguém contratou os serviços do imigrante. “Entreguei vários cartões, mas como ninguém me conhecia, não me davam emprego”, falou.

Foi então que o amigo o levou até a empresa Massas Romenas, lá vários imigrantes vindos do Haiti estava empregados na linha de produção da empresa. Ofereceram a ele uma vaga como auxiliar de produção, o que foi negado imediatamente. Yves queria trabalhar em umas das áreas que possuía qualificação, a construção civil. O responsável pelo recrutamento da empresa lhe ofereceu uma das vagas na manutenção. Segundo o haitiano, estava sendo construído um prédio de três andares, após 15 dias passando por testes práticos, Yves estava finamente empregado.

 

Emprego e amizade

Ao começar a trabalhar na manutenção das Massas Romenas, Yves pode por em prática seu aprendizado. Ele e mais três colegas foram responsáveis por toda a obra, cada um fazia um função, o que causou estranheza no haitiano. “Aqui as coisas são muito diferentes, aqui cada um faz uma coisa, eu estou acostumado em fazer todo o trabalho que eu sei, aqui mesmo que tu saiba tu não pode fazer o serviço que não é teu”, falou.

No emprego, Yves teve muitas dificuldades de comunicar-se, com seu estilo acanhado preferia a solidão à companhia dos colegas nos momentos de folga no trabalho, o que causava espanto em Carlos Roberto Pereira, um colega de trabalho. “O Beto virou um irmão para mim, tudo que eu preciso e peço para ele, ele faz, nunca me negou ajuda alguma. Eu vejo ele como um modelo de ser humano, é assim que vejo os brasileiros, pessoas iguais a ele”, falou Yves.

“Ele tinha vergonha de se aproximar das pessoas, esse colega dele sempre chamava ele para conversar, oferecia carona para ele, mas ele tinha vergonha da casa que morava, porque ela era bem humilde”, conta Miria Perschke, amiga de Yves.

Gratidão

A gratidão de Yves por Beto,  muito além do que o simples diálogo iniciado pelo colega, ou pelas caronas oferecidas depois do expediente. Percebendo as dificuldades que o imigrante que chegara ao sul meses antes tinha, Beto resolveu ajudar o haitiano da maneira que pode. Presenteou o amigo com móveis, cama, geladeira, fogão, roupas, calçado e alimentos, além de um botijão de gás. “No dia do meu aniversário, (27 de janeiro), quando eu cheguei em casa estava tudo lá, o Beto, a esposa dele e uma filha trouxeram um monte de coisas, montaram minha casa, me deram até um bolo de aniversário. Antes eu dizia ‘minha casa tem dois quartos’, mas na verdade não tinha nada, só eu lá dentro, agora eu tenho tudo, porque ele me deu”, contou Yves. “Quando eu vi aquilo, pensei ‘nossa, como tem gente boa aqui’”, complementa.

 

Acolhimento

Quando os imigrantes haitianos chegaram ao Brasil, a maioria deles se sentiu desamparado. São pessoas que viajaram milhares de quilômetros para um lugar até então desconhecido. Muitos deles foram parar no Bairro Betânia, lá o valor dos aluguéis era mais acessível. Um dos moradores do bairro, membro da Igreja Evangélica Batista, comentou com Miria que havia muitos haitianos cristãos que gostariam de frequentar a igreja, foi quando os membros da igreja resolveram fazer um dia de recepção para os imigrantes. “Arrumamos tudo, fizemos um lanche, conseguimos roupas, calçados e alimentos para eles, foi uma espécie de boas vindas”, explica Miria. Quando Miria perguntou qual era a maior dificuldade enfrentada por eles desde sua chegada, prontamente eles responderam que era o idioma. “Eu perguntei e eles prontamente responderam que era o idioma, porque isso dificultava até mesmo a busca por emprego. Quando eu falei que encontraria alguém para lhes ensinar a língua portuguesa, eles elegeram a mim. Na hora respondi ‘como vou fazer isso se sou da área da saúde?’, e eles disseram ‘Deus vai lhe ajudar a nos ensinar’” contou Miria, que é técnica em enfermagem.

As aulas deram certo, ao poucos os imigrantes foram se adaptando com o idioma, em uma situação para que alguns deles conseguissem emprego, bastava que Miria lhes ensinasse o nome de algumas cores. Precisou apenas de um final de semana para que o problema fosse resolvido. Os haitianos aprenderam o necessário, e lá estavam eles empregados.

 

Hora de ajudar   

Depois de enfrentar muitas dificuldades, e de ver os compatriotas também passarem pelas mesmas situações, Yves Pamphiile resolveu criar a Organização dos Direitos Humanos dos Haitianos no Brasil. O objetivo da organização segundo ele é auxiliar os imigrantes haitianos que estão no Brasil. “Muitos deles chegam aqui e não sabem o que fazer, para onde ir. Pegamos eles, abrigamos em minha casa, orientamos eles a fazerem os documentos, até conseguirem um emprego”, explica Yves. Depois de empregados os novos moradores deixam a casa e procuram uma nova moradia, para deixar o espaço livre para outro haitiano que pode chegar. “Muitos deles não sabem nada, e acabam enganados pelas pessoas, muitos saem do emprego e não encaminham o seguro desemprego por não terem a informação que tem esse direito”, falou Miria, que também faz parte da organização.

Yves chegou a alugar duas casas em seu nome para poder alojar todos os amigos, atualmente o presidente e criador da Organização está sem nenhum inquilino. No próximo mês uma irmã de Yves vem do Haiti para lhe fazer companhia.

 

Troca de conhecimento           

As dificuldades de comunicação fizeram com que Yves e seus companheiros passassem a dar aulas dos idiomas ao quais os haitianos tem conhecimento. Todos os domingos à tarde, um grupo de voluntários haitianos dá aula das línguas inglesas, criola, francesa e espanhola para brasileiros, além do português para haitianos. “Queremos passar um pouco da nossa cultura para os brasileiros, por isso oferecemos de forma gratuita aulas dos idiomas que sabemos”, explica Yves.

Atualmente os cursos tem pouca procura, mas o haitiano acha que em breve será possível ver as salas de aula cheias. “Aqui no Brasil as escolas são de graça, mas pessoas não são forçadas a estudar, isso prejudica a educação do povo, no Haiti todas as escolas são pagas, as públicas estão lotadas”, completou.

 

Haitianos no estado

O Brasil tem um convênio com o Haiti que permite a vinda dos haitianos para trabalhar. Pelo acordo, só o Rio Grande do Sul deve ter acolhido mil pessoas até este mês, segundo a Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos do estado.

Em Cachoeirinha ainda não há um dado concreto que quantos imigrantes do Haiti estão residindo na cidade, estipula-se em tono de 100 pessoas. “Estamos tentando contabilizar, os CRAS dos bairros estão nos ajudando, logo saberemos o número exato, mas posso adiantar que o número é superior a cem”, falou o presidente da Organização dos Direitos Humanos dos Haitianos no Brasil.


Organização dos Direitos Humanos dos Haitianos no Brasil

Contato: 8265-8493 / 9461-9237

E-mail: comitê.odhhb@gmail.com

Endereço: Avenida Marechal Rondon, 1322 – Bairro Fátima