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Os desafios de quem precisa trafegar pela ERS-118

Os desafios de quem precisa trafegar pela ERS-118

por Dijair Brilhantes/Caroline Weigel

Caminhoneiros que precisam usar a ERS-118 quase que diariamente enfrentam uma verdadeira guerra, pois cada quilometro percorrido é um desafio para a vida do motorista e do caminhão.

As obras da rodovia parecem nunca ter fim. E o histórico é longo, já que desde o projeto – passando pela execução, sem chegar ainda à finalização -, a obra passou por seis governos e não existe uma previsão do fim. Em 1996, no governo de Antônio Britto, a obra foi desenhada, e desde lá Olívio Dutra, Germano Rigotto, Yeda Crusius, Tarso Genro e agora José Ivo Sartori ainda não conseguiram concluir. São quase 20 anos de transtornos para os motoristas que trafegam diariamente pela rodovia.

A rodovia liga os municípios de Sapucaia do Sul a Viamão, passando por Cachoeirinha e Gravataí, onde circulam cerca de 30 mil veículos por dia. E, se esses motoristas tem esperança de que as obras terminem logo, podem rever essa ideia, já que já fazem mais de seis meses que a obra sofreu nova paralisação.

Rodovia que liga 4 municípios e trafegada por cerca de 30 mil veículos por dia está em obras há 10 anos. Parada desde outubro do ano passado, término está longe do fim

Rodovia que liga 4 municípios e trafegada por cerca de 30 mil veículos por dia está em obras há 10 anos. Parada desde outubro do ano passado, término está longe do fim (Fotos: Anderson Almeida/CC)

Em 2006, começaram efetivamente as obras de duplicação no lote um, em Gravataí, e em 2011 iniciaram as obras no lote dois, no trecho entre Gravataí e Sapucaia do Sul. Em 2013, começaram as obras do lote três – em Sapucaia. De 2006 até agora, já foram investidos R$ 65.907.157,40. Para a construtora Triunfo, foram entregues R$ 34.810.743,61, para a Sultepa foram R$ 28.612.504,58 e para a Conterra foram R$ 2.483.909,21. Estão prontos até o momento 11 km, dos 22 que estão para serem duplicados.

Obras paradas                                                  

Desde outubro do ano passado, a duplicação parou. De acordo com o Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer), há 1,6 milhão de verbas do ano passado que não foram pagas às empreiteiras e, no momento, o órgão está finalizando um cronograma de obras para liberação de recursos junto ao Governo do Estado. A ideia é garantir um aporte que permita o andamento da obra em ritmo normal, de forma que não haja paralisações durante sua execução.

Ainda segundo o Daer, com o contingenciamento de recursos, foi feito um diagnostico de todas as obras rodoviárias a fim de otimizar recursos e liberar as verbas necessárias para a conclusão dos trechos já iniciados e considerados prioritários pelo atual governo, entre eles a ERS-118. A previsão é para que as obras retomem nesse semestre. O órgão explica que não há como precisar o término, mas a meta é finalizar ainda neste governo.

Uma guerra diária

Nossa reportagem percorreu o trecho da ERS-118 nos municípios de Cachoeirinha e Gravataí e na nossa primeira parada em um posto de gasolina no km 9, em Cachoeirinha, já obtivemos os primeiros relatos. “É uma vergonha, não tem explicação para isso, é a pior estrada do Brasil”, diz Paulo Alex Hermes, de 40 anos, 22 deles na estrada. Morador de Esteio, o caminhoneiro diz não ter outra opção, senão trafegar pela rodovia. “Eu moro em Esteio, não existe outro caminho, eu tenho que passar por aqui, senão não vou para casa”, lamenta. “Eu votei nesse governador, e nem continuidade a essa obra ele deu”, fala Paulo.

O mesmo ocorre com Altair Romazo, morador de Sapucaia do Sul – às margens da ERS-118: é obrigado a usar a rodovia. “É o único caminho que tenho até em casa, e eu não conheço estrada pior em todo o Brasil”, lamenta Altair. O caminhoneiro lembra que em São Paulo duplicaram uma estrada de 22 quilômetros, em três anos. “Eles começaram a fazer a estrada depois, já terminaram, e aqui nada”, complementa.

O administrador do posto de gasolina que preferiu não se identificar diz trabalhar há cinco anos no estabelecimento, e que as obras pioraram a via com os passar dos anos. “Está muito ruim, não tem mais o que dizer, basta olhar e ver o que é a estrada”, queixa-se o administrador. Segundo ele, as obras dificultaram também o fluxo de clientes no posto de gasolina. “Hoje quem vem de Gravataí e quer abastecer aqui, para seguir viagem, precisa voltar cerca de 500 metros para fazer o retorno, o que dificulta bastante”, conclui o gestor.

Mesmo aposentado, Altair Romazo,  de 77 anos, segue na estrada, o caminhoneiro diz ter certeza que ERS-118 é a pior rodovia do Brasil que ele trafega

Mesmo aposentado, Altair Romazo, de 77 anos, segue na estrada, o caminhoneiro diz ter certeza que ERS-118 é a pior rodovia do Brasil que ele trafega

 

Em Gravataí, a mesma dificuldade

No município vizinho, Gravataí, a situação é igual: mesma rodovia e os mesmos problemas. O caminhoneiro e empresário Flávio Batistti faz uma brincadeira ao ser perguntado sobre as condições da ERS- 118. “Está uma beleza, não tem estrada melhor no Brasil, coloca aí tudo isso, só que ao contrário”, brinca o motorista. “A esperança é a última que morre, mas não acredito que essa obra um dia vá acabar, é sem dúvida a pior rodovia do Brasil”, fala Flávio, que viaja desde 1988. O caminhoneiro e empresário diz que ter prejuízos com suspensão, pneus e molas, devido aos buracos.

Anderson Vasques, tem 28 anos, sete deles como caminhoneiro, e também diz não ter dúvida que a ERS-118 é a pior estrada que ele percorreu nestes anos de profissão. “É muito, mas muito ruim mesmo, não conheço uma estrada pior, lá para cima, as estradas são boas, algumas os pedágios são caros, mas são boas”, diz Anderson, morador de Gravataí.

 

O patrão também está na estrada

Morador de Gravataí, o caminhoneiro Flávio Batistti viaja pelo Brasil, a bordo de um dos 14 caminhões que compõe a frota da Transportadora Batistti, de sua propriedade, e diz sentir na pele o que cada um de seus motoristas sofre ao trafegar por uma rodovia na situação da 118. “Os caminhões de hoje em dia são modernos, tem conforto, mas o risco que cada um corre numa estrada dessas não tem explicação”, lamenta o gravataiense. Ele ressalta que além das péssimas condições do asfalto, a má sinalização acaba ajudando a ocasionar acidentes. “É um breu, uma escuridão, quem não conhece a estrada se perde, a sinalização quase não existe”, queixa-se Flávio.

O empresário diz que estradas como a ERS-118 deixam qualquer um com medo de algum acidente, mas isso não o faz desistir da estrada. “Eu estou me aposentando, mas não largo a estrada, junto com meu sangue na veia corre o óleo diesel”, conta Flávio.

Segundo o Daer, a superintendência de Esteio, responsável pela rodovia realiza operação tapa-buracos periodicamente na ERS-118. E a sinalização vertical deverá ser revitalizada em alguns pontos próximos aos desvios até o final deste mês, mas que a sinalização sofre constantes furtos e depredações.

 

Mais de mil acidentes em 5 anos

O trecho de apenas 22 quilômetros da ERS-118 entre Sapucaia do Sul e Gravataí registrou 34 mortes e 1.297 acidentes desde 2010. Segundo o Sargento Silva, que trabalha no Posto da Polícia Rodoviária Estadual de Gravataí, Sapucaia do Sul é o trecho com maior número de acidentes. “Temos orientado bastante os condutores, que é preciso redobrar o cuidado, já que a estrada não tem acostamento”, explica o Sargento.

 

Custos       

As más condições da estrada, a sinalização precária, os riscos enfrentados pelos motoristas na escuridão da rodovia, os problemas não param por aí. Os caminhoneiros reclamam também dos gastos que a 118 traz a cada viagem. “Basta olhar os pneus da carreta que tu vai ver, eles são novos, mas estão danificados, imagine 50 mil quilos nessa buraqueira?”, questiona o caminhoneiro Paulo Hermes. Ele também lembra que o caminhão consome muito mais combustível, devido à quantidade de vezes que precisa parar e arrancar por causa dos congestionamentos que a obra inacabada ocasiona. “O diesel já está um absurdo de caro, imagina esse ‘para e arranca’, dobra o consumo”, lamenta.