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Omissão de quem?

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Idoso de 83 passou mal; a família ligou para o 192 mas a ambulância não chegou e Edgar Kaiser veio a falecer; município alega que não recebeu o chamado da regulação estadual

Luiz e Neli Coelho “adotaram” Edgar Kaiser, de 83 anos, como pai. O casal e o idoso eram vizinhos e como Edgar era muito sozinho, a família o acolheu com muito amor. “Eles viajavam juntos para vários lugares à passeio, e ele fazia as refeições todos os dias na casa dos meus pais. Só dormia em sua própria casa, e onde meu pai estivesse lá estava ele”, conta a filha do casal, Quelen Coelho.

Solteiro e sem filhos, com alguns sobrinhos distantes, que nunca o visitavam ou mantinham contato, Edgar vivia com a família dos vizinhos e contava com eles para tudo. Na terça-feira, 21, ele não estava se sentindo bem, então Luiz o levou para a própria casa para cuidar dele com maior atenção. Durante a tarde, Edgar foi melhorando, tomou suco e a noite café com leite e continuou deitado. “Por volta das 22h15, minha mãe viu que ele estava com a perna para fora do cobertor e foi colocar de volta para baixo das cobertas. Nisso ele amoleceu e começou a ter dificuldades para respirar”, relembra Quelen.

Neli começou rapidamente a atende-lo, tentando fazê-lo reagir e na mesma hora Luiz telefonou para o 192, solicitando atendimento do Samu. “Depois de falar com atendente e com um médico, ficar na espera e demorar um pouco na linha, lhe foi informado que Cachoeirinha não tinha ambulância disponível e que este atendente solicitaria ajuda dos bombeiros”.

Quinze minutos se passaram e ninguém apareceu. O casal continuou tentando reanimar o idoso, que estava com muita dificuldade para respirar e com muita ânsia. Mas, apesar de todas as tentativas, Edgar acabou falecendo. A família chamou um médico particular, que atestou o óbito. “O médico atestou causa indefinida mas ele estava em tratamento médico. Tinha as veias do pescoço entupidas. O médico, no laudo, baseou-se nos exames realizados mês passado e neste mês, bem como nos laudos e tratamento que estava fazendo”.

Às 23h20, Quelen estava na casa dos pais e recebeu uma ligação do atendimento do Samu, perguntando se ainda precisavam que fosse feito o atendimento. “Eu falei que não. Que por omissão de socorro a pessoa havia falecido. Perguntei onde estavam os bombeiros, e a atendente disse que eles nunca chamam os bombeiros, pois a corporação de Cachoeirinha só tem um caminhão e não seria possível. E por fim disse que anotaria o óbito”, relata, indignada.

Edgar Kaiser, de 83 anos, passou mal na terça-feira, 21; o casal de amigos que era vizinho do idoso e cuidava dele chamou a ambulância da Samu e não recebeu atendimento; Edgar acabou falecendo na noite de terça

Edgar Kaiser, de 83 anos, passou mal na terça-feira, 21; o casal de amigos que era vizinho do idoso e cuidava dele chamou a ambulância da Samu e não recebeu atendimento; Edgar acabou falecendo na noite de terça

“A revolta que temos é muito grande! Um morador de Cachoeirinha há mais de 50 anos, pagador de impostos, ser negligenciado assim. Esta não foi a primeira vez que o Edgar necessitou do Samu e não vieram. Em abril ele desmaiou e eu mesma liguei, e depois de falar com duas atendentes e uma médica, fui informada de que Cachoeirinha só tinha uma ambulância do Samu e a mesma estava estragada”, completa. Quelen destaca que a família não irá procurar a justiça, mas que eles querem divulgar o caso para mostrar o caos vivido em Cachoeirinha. “Esta é uma legítima terra de ninguém”, conclui.

A família reunida junto com Edgar na última viagem que fizeram juntos, em abril desse ano, em Maceió-AL

A família reunida junto com Edgar na última viagem que fizeram juntos, em abril desse ano, em Maceió-AL

“Não recebemos chamado”

O diretor do Posto 24h, onde fica a ambulância da Samu, Luis Carlos Boric, afirmou que eles não receberam nenhum chamado da Samu. “O pedido ficou na regulação, não nos foi passado. Eu estou aqui com os horários e os chamados que tivemos na terça, e todos os que tivemos foram atendidos”, garantiu.

Ele explica que a Samu é regulamentada pelo Estado e que todos os chamados passam pelo 192. “Quando a pessoa liga para pedir uma ambulância, a regulamentação da Samu, a nível estadual, entra em contato conosco e solicita a ambulância. Muitas vezes a ambulância da Samu está em atendimento, então enviamos a nossa ambulância aqui do PA (Pronto-Atendimento)”, explica.

O diretor completa que nem mesmo essa ambulância própria do posto recebeu chamado da regulamentação da Samu. “Quando a ambulância do Samu está em atendimento, eles entram em contato comigo ou com a enfermeira de plantão e solicitam nossa ajuda com a outra ambulância. Mas não recebemos esse chamado”, reiterou.

Luis Carlos Boric explica também que a equipe quem paga é o município, assim como grande parte da manutenção da ambulância. “Agora em março perguntamos quem gostaria de trabalhar no Samu e duas técnicas se ofereceram. Esses profissionais então fizeram os cursos necessários e especializações e agora encaminhei o currículo para o estado. A ideia é ter mais uma equipe aqui em Cachoeirinha para ajudar”, complementou.

Ele concorda que a situação poderia ser melhor, mas destaca que o serviço existe, que funciona e que salva vidas. “Ás vezes acontecem essas situações, mas a ambulância ajuda a salvar muitas vidas. E, se tivessem chamado, não teria motivo para não mandarmos a ambulância”, assegurou. Ele disse que na noite de terça-feira, foram muitos chamados, em acidente de trânsito, uma criança que estava passando mal e um chamado na Vila Olaria.

 

FOTOS: Arquivo Pessoal