"Eu ajudo como forma de retribuir o bem que recebo diariamente" | 2M Notícias

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“Eu ajudo como forma de retribuir o bem que recebo diariamente”

“Eu ajudo como forma de retribuir o bem que recebo diariamente”

por Caroline Weigel

Como ver alguém precisando de ajuda e não estender a mão? Angela Severgnini, personagem dessa semana da Série Protagonistas da Vida, se sentia assim e sempre procurava ajudar da forma que podia. O exemplo da corretora de imóveis, que completa 33 anos no próximo domingo, veio de casa: “venho de uma família pobre, mas que sempre foi solidária. Minha avó deixava que as crianças de rua almoçassem em nossa casa, ela dava roupas limpas, sabonete, e pedia que viessem limpinhos para almoçar em sua casa. Também doava o que podia aos mais necessitados. Então cresci sentindo empatia pela situação das pessoas”.

A moradora do bairro Imbuí sempre realizou diversos trabalhos sociais, mas foi em 2008 que ela iniciou um projeto mais organizado, a Turma do Bem. No Natal daquele ano, ela encontrou algumas crianças pedindo dinheiro na rua e se deu conta de que elas não ganhariam nada naquele ano. “Pensei que era muito triste perder a esperança assim tão cedo. Então conversei com minha irmã e mais duas amigas para organizarmos uma doação na Vila da Paz”, conta.

No natal de 2008, Angela se solidarizou com algumas crianças que pediam dinheiro e decidiu organizar uma ação solidária para ajudar as crianças da Vila da Paz. Assim surgia a Turma do Bem

No natal de 2008, Angela se solidarizou com algumas crianças que pediam dinheiro e decidiu organizar uma ação solidária para ajudar as crianças da Vila da Paz. Assim surgia a Turma do Bem

Assim, naquele mesmo dia, as quatro começaram a arrecadar dinheiro, brinquedos e roupas, junto com os amigos e parentes. “Confesso que foi muito difícil, pois na época, talvez pelo fato de não existirem tantas páginas sociais, não era muito normal essa questão da solidariedade”, relembra. Mas, mesmo assim, de cinco reais em cinco reais Angela e as amigas conseguiram organizar uma linda entrega e dali em diante nunca mais pararam.

Em 2010 houve um aumento no número de voluntários da Turma do Bem, após a criação de uma página no Facebook. “As pessoas começaram a nos procurar para ajudar e seguimos fazendo os trabalhos sociais, com cada vez mais voluntários”, observa. Em 2012, Jorge Luiz sugeriu que a Turma do Bem entregasse sopa nas vilas carentes, então a ideia foi agregada à Campanha do Agasalho e acabou sendo um sucesso.

Ações

O grupo realiza trabalhos voluntários durante o ano todo. “Temos ações fixas e que realmente ajudam os bairros, como entrega de roupas e alimentos na Vila Águal, em Nova Tramandaí, Sopão do Bem, Campanha do Agasalho, Dia das Crianças e Natal em Cachoeirinha”, explica.

O Sopão do Bem é preparado pelos integrantes do grupo, durante o inverno, nas sextas-feiras à noite, e entregue aos sábados pela manhã, junto com cobertores, roupas, calçados, leite e alimentos não perecíveis. “É um sábado em cada vila, Maria, Olaria e Canarinho II, e uma entrega noturna para os moradores de rua”, acrescenta.

A Turma do Bem também realiza as festas para as crianças. “É mais divertido, temos entrega de muitos brinquedos, doces, biscoitos, leite, roupas, cachorro quente ou sanduíche e refrigerantes, além de um concurso cultural, onde entregamos bicicletas para os autores das melhores redações. Nosso intuito é fazer com que a criança se dedique à escrita e a leitura e também mostrar que os mais empenhados e dedicados recebem boas recompensas”, salienta.

Outras ações são feitas pelo grupo, como o Sopão do Bem, que distribui, no inverno, sopa para famílias carentes e também para moradores de rua que vivem em Cachoeirinha

Outras ações são feitas pelo grupo, como o Sopão do Bem, que distribui, no inverno, sopa para famílias carentes e também para moradores de rua que vivem em Cachoeirinha

Inesquecível

Para Angela, uma ação inesquecível nesses anos de Turma do Bem foi uma realizada na Vila Maria, em Cachoeirinha. “Estivemos no local em um sábado à tarde, após uma semana de chuvas ininterruptas, para levar cobertores, roupas, alimentos e leite para as famílias que estavam ilhadas”, cita.

Cleiton Silveira, um dos voluntários, foi junto pois ele tinha um jipe para ajudar nas entregas, mas havia chovido tanto que a solução foi ir de caiaque até as casas. “Foi muito triste ver as pessoas com água até os joelhos e sair de lá sabendo que elas permaneceriam ali”, lamenta.

Dificuldades

Em 2013, Angela descobriu que estava com câncer. Essa descoberta veio no mesmo dia em que a Turma do Bem se organizava para uma ação do Dia das Crianças. “Ter isso para fazer me ajudou a não pensar na doença. Eu fiz três cirurgias, passei por quimioterapia e radioterapia, mas nunca deixei de participar das ações, então não vivi o tratamento”, conta.

“Acho que não senti muito, pois trabalhei direto tanto no meu escritório quando na Turma do Bem. Consegui vencer o câncer, em maio faz um ano que acabou”, comemora.

Sonhos

Angela tem muitos sonhos ainda para o trabalho social. “Quero ajudar as crianças durante a fase escolar, ter condições de alimentá-las bem, vesti-las de forma adequada e de acompanhar o desenvolvimento até o momento em que fossem para um curso superior ou para o mercado de trabalho”, projeta.

Além disso, ela quer profissionalizar as mães, mas ter um local para que os bebês tenham onde ficar durante o dia: “acho que assim elas teriam como ter uma vida digna e contribuir em casa de forma ativa”.

Sentimentos

Angela sempre fica muito feliz quando tem a oportunidade de ajudar alguém. “Isso me mostra o quanto sou abençoada e o quanto a vida tem sido generosa comigo. Eu ajudo como forma de retribuir o bem que recebo diariamente. Tenho muitos amigos, trabalho na profissão que amo, minha casa é alegre. Então me sinto na obrigação de ajudar as pessoas, dessa forma não esqueço de onde vim e que a humildade é fundamental em nossas vidas.

Uma das ações que mais marcou a vida de Angela foi realizada na Vila Maria, quando eles não conseguiram entrar de jipe e tiveram que levar as doações de caiaque por causa das enchentes

Uma das ações que mais marcou a vida de Angela foi realizada na Vila Maria, quando eles não conseguiram entrar de jipe e tiveram que levar as doações de caiaque por causa das enchentes

A protagonista conta também que muitas vezes ela, a irmã Dávia e a sobrinha Júlia deixam de cuidar das próprias casas ou do escritório para comprar doações e organizar as entregas. “Mas é gratificante, pois a Turma do Bem se tornou nossa família”, conclui.