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Em 2015, pessoas ainda perdem a vida no trabalho

Em 2015, pessoas ainda perdem a vida no trabalho

Por Caroline Weigel e Dijair Brilhantes

Mesmo com todos os avanços tecnológicos do novo século, trabalhadores ainda perdem a vida durante suas atividades profissionais, e deixam filhos órfãos, os cônjuges viúvos e colegas de trabalho estarrecidos com a vulnerabilidade do ambiente de trabalho. Em muitos casos basta o profissional usar o EPI (equipamento de proteção individual), em outros é preciso investimento da empresa.

Foi o que ocorreu no último dia 14 deste mês em uma empresa no Distrito Industrial de Cachoeirinha. Um homem morreu triturado em acidente com uma máquina de triturar madeira. De acordo com testemunhas, na ocasião a vítima fazia reparos na máquina, quando ocorreu o acidente.

Os colegas tentaram parar a máquina, mas não foi possível salvá-lo, os policiais que estiveram no local relataram que o corpo ficou em estado lamentável. O acidente fatal poderia ter siso evitado? Para o técnico em segurança do trabalho Jeferson dos Santos, sim. “Mesmo não estando no local, eu entendo que todo o acidente pode ser evitado, um bloqueio na máquina em que a vítima estava fazendo a manutenção teria evitado o acidente”, explica o técnico.

Acidentes causam perda de membros

Talvez por “sorte” nem todos os acidentes de trabalho terminam em óbito, mas mutilações no corpo incrivelmente ainda são comuns em alguns ramos no mercado de trabalho. Foi o que ocorreu com Lucas Rocha, morador do Bairro Vista Alegre em Cachoeirinha. Em fevereiro deste ano Lucas estava trabalhando em uma empresa localizada na Av. Frederico Ritter, no descarregamento de tonéis de óleo, quando um dos recipientes rolou e acabou prensando o dedo médio de uma das mãos entre os latões. “O tonel rolou, e minha mão estava entre os tonéis, não tive tempo de tirar”, conta Lucas.

Atividade ilegal

Segundo ele o advogado que defende a causa judicial que o funcionário entrou contra a empresa teria dito que a atividade é ilegal. “Ele me falou que eu não poderia fazer aquela atividade, pois o tonel tinha 260 quilos, quase 200 a mais que o peso do meu corpo” falou o acidentado.

Em fevereiro deste ano Lucas estava trabalhando no descarregamento de tonéis de óleo, quando um dos recipientes rolou e acabou prensando o dedo médio de uma das mãos entre os latões

Em fevereiro deste ano Lucas estava trabalhando no descarregamento de tonéis de óleo, quando um dos recipientes rolou e acabou prensando o dedo médio de uma das mãos entre os latões

Lucas Rocha conta que no momento do acidente não foi possível notar que parte de um dos dedos teria sido amputado. “Eu estava de luvas e só senti um choque, quando tirei a luva reparei que faltava uma parte do dedo”, explica.

Além do problema físico o jovem diz estar passando por problemas emocionais, pois ainda não conseguiu se acostumar com a falta de parte do dedo. “É difícil olhar para mão e ver que falta uma parte, além disso agora quando eu quiser procurar outro emprego eu terei que entrar na vaga de PPD (pessoa portadora de deficiência)”, lamenta Lucas.

Além do problema físico o jovem diz estar passando por problemas emocionais, pois ainda não conseguiu se acostumar com a falta de parte do dedo

Além do problema físico o jovem diz estar passando por problemas emocionais, pois ainda não conseguiu se acostumar com a falta de parte do dedo

Acidente em 2013

Toda a população de Cachoeirinha se perguntou, chocada, o que seria a fumaça que vinha do Distrito Industrial em março de 2013. Foi o incêndio na empresa BR Quim, uma das maiores tragédias da cidade, que vitimou um trabalhador e deixou outro ferido.

Diego do Nascimento teve 50% do corpo queimado e Robson Luis Canabarro perdeu a vida, após uma explosão durante um abastecimento de um caminhão na empresa.

Em 2013, um incêndio de grandes proporções na empresa BR Quim vitimou um trabalhador e o outro teve 50% do corpo queimado

Em 2013, um incêndio de grandes proporções na empresa BR Quim vitimou um trabalhador e o outro teve 50% do corpo queimado

Data marca dia trágico

No dia 28 de abril foi celebrado o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho. A data marca um grave acidente ocorrido 1969, quando uma explosão numa mina no estado norte-americano da Virginia matou 78 mineiros. Em 2003, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) instituiu a data como o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, em memória às vítimas de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. Neste dia são celebrados eventos no mundo todo para a conscientização dos trabalhadores e empregadores quantos aos riscos de acidentes. A data foi instituída no Brasil pela Lei nº 11.121 de 2005.

Acidente de trabalho é aquele que ocorre pelo exercício da atividade durante o expediente, no percurso do trabalhador para empresa ou na volta para casa. São aqueles em que há lesão corporal ou perturbação funcional, permanente ou temporária, que causa a morte, a perda ou a redução da capacidade para o trabalho.

Prevenção dos acidentes

Segundo o técnico em segurança do trabalho Jeferson dos Santos, a prevenção é a única forma de evitar que os acidentes aconteçam. “Os acidentes não acontecem do nada, ele dá alguns avisos, uma máquina, por exemplo, se tiver manutenção não irá ocasionar um acidente”.

Ao longo do tempo, um conjunto de medidas legislativas foi aplicada para garantir proteção e direitos aos trabalhadores. Na década de 1970, o Brasil registrava uma média de 3.604 óbitos para 12.428.826 trabalhadores. Nos anos 1980, o número de trabalhadores aumentou para 21.077.804 e as mortes chegaram a 4.672. Já na década de 1990, houve diminuição nos óbitos: 3.925 para 23.648.341 trabalhadores. “Hoje podemos dizer que estão ocorrendo diversas mudanças na questão da prevenção, mas há muita resistência tanto por parte das empresas como por parte do funcionário”, explica Jeferson.

Em julho de 1972, foram criadas as Portarias nº 3.236 – que instituiu o Plano Nacional de Valorização do Trabalhador ‑ e nº 3.237 – que tornou obrigatória a existência de serviços de medicina do trabalho e engenharia de segurança do trabalho em todas as empresas com um ou mais trabalhadores.

O então ministro do Trabalho, Júlio Barata, atualizou o artigo 164 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que discorre sobre as condições internas de uma empresa em relação à saúde e à segurança. Esse artigo também trata da atuação e formação da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA).

Jeferson dos Santos é técnico em segurança do trabalho desde 2008, e atua na construção civil, segundo ele acidentes podem ser evitados, para isso é necessário que a empresa invista em equipamentos de proteção e a prudência do profissional

Jeferson dos Santos é técnico em segurança do trabalho desde 2008, e atua na construção civil, segundo ele acidentes podem ser evitados, para isso é necessário que a empresa invista em equipamentos de proteção e a prudência do profissional

Plano de segurança tem 4 anos

Em 2011, o Governo Federal lançou O Plano Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho, com o objetivo de assegurar melhores condições no ambiente e nas relações de trabalho. O plano foi elaborado por uma Comissão formada por membros do governo e das centrais sindicais. Entre os objetivos do projeto estão a harmonização da legislação trabalhista, sanitária e previdenciária relacionadas à saúde e segurança do trabalho; a adoção de medidas especiais para atividades com alto risco de doença e acidentes; e a criação de uma agenda integrada de estudos em saúde e segurança do trabalho.

Consciência

O técnico em segurança deixa um aviso, segundo ele o funcionário precisa se conscientizar que o maior prejudicado em caso de acidente será ele. “O funcionário tem que entender que se ele sofrer um acidente no trabalho, no outro dia alguém estará fazendo a função dele na empresa, o problema é em casa”, alerta Jeferson. E quanto às empresas o TST lembra que os empresários brasileiros  precisam mudar a cultura do improviso. “O Brasil não é o país da prevenção, e sim o do improviso, isso é um agravante no índice de acidentes”, conclui.

Estatísticas

Os índices de acidente de trabalho no Brasil preocupam. O país é o quarto do mundo em números de acidentes fatais. Em 2013, ocorreram 2.797 mortes em todo o Brasil e foram 717.911 acidentes de trabalho.

Já no Rio Grande do Sul, de 2012 para 2013 o número de acidentes de trabalho aumentou de 55.397 para 59.627, mas o número de óbitos diminuiu, com 166 mortes em 2012 para 140 em 2013.

Os grupos mais vulneráveis são motoristas, agentes de segurança, trabalhadores da construção civil e trabalhadores rurais.

Info 1

Três mortes em 2013

Em Cachoeirinha, houve uma diminuição no número de acidentes de trabalho de 2012 para 2013. No primeiro ano, foram 938 acidentes, e no segundo foram 875. Mas houve aumento no número de mortes, já que em 2012 não ocorreram mortes registradas por acidente de trabalho no município, e em 2013 foram três.

Por acidente típico – decorrente da característica da atividade profissional desempenhada pelo acidentado – foram 462 acidentes registrados em 2013. Por trajeto – no caminho entre a residência e o local de trabalho – foram 119 e devido à doença – acidentes ocasionados por qualquer tipo de doença profissional peculiar a determinado ramo de atividade – foram 36 casos.

Info 2

Queda no número de óbitos

Canoas apresentou queda no número de acidentes de trabalho e no número de óbitos. Em 2012, foram 1.892 acidentes de trabalho, com sete óbitos, e em 2013 foram 1.786, seis deles fatais. Em 2013, foram 1.200 por acidente típico, 292 no trajeto e 86 por doença.

Aumento de acidentes

Gravataí foi à contramão dos outros municípios e apresentou aumento nos índices de 2012 para 2013, apesar de registrar queda no número de óbitos. Em 2012, foram 1.710 acidentes e três mortes e no ano seguinte foram 2.065 acidentes, mas apenas uma morte. Em 2013, foram registrados 1.391 casos por acidente típico, 334 por trajeto e 76 por doença. Em 2014, foram realizados 263 atendimentos de acidentes de trabalho no hospital Dom João Becker.