Do descaso com a Canarinho ao abandono do Chico Mendes | 2M Notícias

Edições Online

Capa Gravataí Capa Cachoeirinha Capa Sto Antonio

Do descaso com a Canarinho ao abandono do Chico Mendes

Do descaso com a Canarinho ao abandono do Chico Mendes

Não são todas as pessoas que podem usufruir do conforto, de terem uma casa regularizada, longe dos perigos que rodeiam as residências em locais clandestinos. Têm quem não abra mão de casas com vários cômodos, alguns preferem apartamento com elevador privativo e segurança reforçada na portaria.

A maioria dos lares brasileiros mal dispõe de dois quartos ou de banheiro. Há milhões de pessoas que se amontoam em barracos, amontoam camas em pequenas peças, e são obrigados a conviver com esgoto a céu aberto, água e luz clandestina. Sob o risco eminente de um incêndio devido à má instalação, feita de forma amadora. Torcendo para que a natureza não os castigue por estarem ali, pois os culpados por isso estão em lares confortáveis. Esta é a difícil realidade dos moradores da Vila Canarinho.

Vizinhos do Loteamento Chico Mendes, os moradores foram os primeiros a ocuparem as casas do local durante a debandada ocorrida em novembro de 2011, motivados por uma tempestade que devastou o humilde vilarejo. Uma das lideres comunitárias conhecia como Nica, participou da organização da ocupação. “Na época, as casas foram todas destelhadas, a Defesa Civil do município trouxe umas lonas, mas foram insuficientes, daí surgiu a ideia de ocupar o Chico Mendes, já que as casas estavam praticamente prontas”, lembra Nica.

Ocupação em massa        

Após verem a real possibilidade de ocuparem o Chico Mendes, era hora de se organizarem e partirem para a missão. De forma massiva, os moradores da Vila Canarinho partiram para o que seria o novo endereço. Embora inacabadas, as casas do loteamento Chico Mendes apresentavam melhores condições de moradia que as atuais da Vila Canarinho. Conforme Nica, tudo ocorreu de forma pacífica e ordeira, todos escolheram uma casa para morar, levaram seus pertences, e começaram a arrumar o que era preciso, tudo acompanhado sob o olhar de um grande contingente de policiais militares. “O prefeito Vicente foi lá, conversou com a gente e nos informou que iria pedir a retirada da Brigada Militar do local”, explicou Nica.

Recadastramento

Conforme a líder comunitária, cerca de três meses depois o Batalhão de Choque voltou ao Chico Mendes com funcionários da Caixa Econômica Federal, para fazer o recadastramento das famílias. “Tudo estava sendo garantido pelo secretário de habitação da época, André Lima, pelo vereador Nelson Martini e pelo prefeito Vicente Pires”, falou Nica.

Segundo os moradores, o vereador Rubens Otávio (PTB), advogou em pró da comunidade na justiça. “O vereador Rubinho cobrava R$ 2, duas vezes na semana, ele dizia que era para cobrir os custos de deslocamento, tudo era anotado em um caderno, mas quando chegou próximo das eleições ele nos falou que íamos perder na justiça e que era melhor voltarmos para as antigas casas”, lembra Nica.

Investimento

Com as garantias dadas pelas autoridades do município de que permaneceriam morando no Chico Mendes, os moradores aos poucos foram investindo nas casas para terem melhorias. Alguns colocaram pisos, trocaram janelas, portas, substituíram telhas. Alguns moradores chegaram a gastar cerca de 10 mil reais nas reformas. “Eu investi na minha casa lá no Chico Mendes, quis fazer algumas melhorias, comprei piso, forro. A gente se aborrece, porque nos mandaram sair depois de nos darem garantias que isso não ocorreria”, falou Marco Aurélio da Rocha, 48 anos, um dos moradores que participou da ocupação do Chico Mendes em 2011.

“Eu pagava aluguel, quando fomos pra lá pegamos uma casa ainda inacabada, compramos piso, janelas, portas, forro, fizemos um banheiro porque não tinha, gastamos em torno de R$10 mil”, falou Juliana Silveira, moradora da Vila Canarinho.

O mesmo ocorreu com Isabel Cristina, de 27 anos, a moradora abriu mão da casa que tinha na Vila Canarinho para ir para o Chico Mendes. “Eles (autoridades) nos garantiram que não iriam nos tirar de lá, saí da Canarinho e investi dinheiro para fazer melhorias, e um dia veio o comunicado que tínhamos que deixar o Chico Mendes”, explicou a mãe de cinco filhos, 11, 9, 5,3 e 1 ano de idade.

Claudina Jacinto, de 68 anos, vive a expectativa de ser uma das contempladas com as casas do Chico Mendes. Viúva e aposentada, ela diz receber um salário mínimo, por isso não tem condições de adquirir um lugar melhor. “A gente quer um casinha melhor, já estou com 68 anos, não tenho como comprar”, lamenta a aposentada.

Era hora de voltar, mas para onde?

Todo o processo de ocupação e desocupação do Loteamento Chico Mendes durou sete meses. Nesse intervalo de tempo, novas famílias passaram a morar nos terrenos deixados na Vila Canarinho. Quando receberam a informação que teriam que deixar as casas no novo loteamento, muitos não sabiam para onde iriam, as antigas casas já estavam ocupadas. A solução foi expandir ainda mais o espaço irregular da Vila Canarinho. “Quando voltamos, as casas estavam ocupadas, tivemos que abrir mais uma rua ali”, conta Isabel Cristina, apontando para um dos becos.

A mesma situação vive Nicolau Dill, após ter investido cerca de 5 mil reais na casa do Chico Mendes, acabou tendo que sair e ver tudo que já tinha feito ser destruído e morar de aluguel. “Fiz todas as reformas, e hoje pago aluguel, não pude mais ir lá no Chico Mendes, mas sei que está tudo destruído”, lamentou Nicolau.

Os moradores ainda esperam voltar para o prometido loteamento, de preferência para a mesma casa que um dia foi habitada por eles. “Eu quero voltar para lá, para a mesma casa, espero, mas está difícil”, falou Marco Aurélio.

Em cima de uma carroça, puxada por um cavalo, companheiro de trabalho, estava Carlos Eduardo, o vendedor de produtos de limpeza diz sonhar todas as noites com o dia do retorno ao Chico Mendes. “Eu fui pra lá e deixei tudo aqui, quando voltei eu não tinha mais casa, fui obrigado fazer uma outra casinha para mim mais lá para o fim da rua”, falou Eduardo. Na casa moram além dele e a esposa, dois filhos um de 3 e outro de 4 anos.

Abandono

Com as promessas que tudo estaria resolvido dentro de seis meses, os moradores retornaram para a Vila Canarinho. Se o cronograma fosse cumprido, em janeiro de 2013 as famílias retornariam para o Chico Mendes e as 423 casas estariam acabadas.

Tudo ficou na promessa. Até as melhorias no Bairro Vila Canarinho que haviam sido prometidas pela administração municipal foram esquecidas. “O André Lima nos prometeu melhorar aqui até o Chico Mendes ficar pronto, vieram aqui, mediram terreno e prometeram regularizar luz e água, mas ficou na promessa, sumiram e nunca mais voltaram para dar satisfações”, queixou-se a líder comunitária Nica. A energia elétrica chega a todas as residências da Canarinho de forma clandestina, a água que parte da vila tem a distribuição regularizada.

Estrutura zero

Se o Chico Mendes estava e ainda está inacabado, os moradores entendem que a estrutura do local mesmo assim era superior ao que eles hoje possuem na Vila Canarinho. Mãe de três filhos, 1,3 e 6 anos, Maiara Barbosa queixa-se da falta de estrutura e de condições do local. “Não temos nada aqui, faltam creches, escolas. As crianças ficam nas ruas porque não tem onde brincar, nem uma pracinha ou campo há aqui”, falou Maiara. Os moradores lembram que tudo isso teriam no Chico Mendes, pois até um galpão teriam para usar como área de recreação ou para servir alimentos quando necessário. Enquanto aguardam o Chico Mendes, as famílias vivem em um local de total abandono.