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Urubus travestidos de pombas

Provérbio chinês: “Há três coisas que nunca voltam: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”. Em tempos de redes sociais, acrescento por minha conta o post publicado.

Custou-me acreditar que um prefeito – não um prefeito inexperiente, jovem, de primeiro mandato – mas um prefeito de segundo mandato e ex-vereador, político desde criancinha tenha ido para o facebook “desabafar” perguntando  “Quantos urubus morreram hoje?”  Neste caso, perdeu a oportunidade de ficar calado. Tanto que teve de reconhecer a infelicidade da sua frase e deletá-la.

A justificativa para tal desabafo? Que foi uma semana muito difícil, “pelo caos vivido na cidade e toda a pressão”.

Ora, prefeito, foi uma semana muito difícil? Difícil foi a semana das famílias que enterraram seus filhos devido a um surto de meningite – comunitário que seja – que, vamos combinar, demorou a ser admitido.  Difícil deve estar a vida das 240 famílias que um dia, há cinco anos, acreditaram que sairiam da sua situação de risco na vila Olaria e na Vila Navegantes e que devem agora mesmo estar sofrendo com mais alagamentos.

Semana difícil é a do trabalhador ou trabalhadora que tem de mofar na parada aguardando um ônibus para pagar R$3,35 de ida, mais R$3,35 de volta, e, no desespero, para não chegar atrasado, acaba pegando um lotação e desembolsando a extorsão de R$4,55 porque o ônibus não vem. Pergunte a essa massa explorada e stadt-abusada quem ela pensa que são os urubus?

Não satisfeito, num gesto de total incontinência verbal e emocional – depois de ameaçar processar todo mundo que postasse informações sobre a meningite que não fossem as oficiais disponibilizadas pela Prefeitura – o prefeito publicou a seguinte pérola: “Na boa, Cachoeirinha (sic). To de saco cheio (sic e assim sem acento). Tenho dedicado minha vida e de meus familiares para tentar minimizar as dificuldades do nosso povo”.

Sério, prefeito? Tá de saco cheio? Para as articulações a fim de manter o PSB no poder, à custa do loteamento da prefeitura e à base de siglas de aluguel e de ocasião, o senhor me parece bem disposto.

Tem dedicado sua vida? Pero no mucho, me parece. Da sua família? Nem precisava. Era só cumprir com seus compromissos junto à população de Cachoeirinha, que esta, sim, está de saco cheio. Na hora dos bônus ser prefeito não é estressante, mas na hora dos ônus, – pela qual o senhor é bem remunerado, diga-se de passagem – a pressão é demais?

E de mais a mais, este caos citado por vossa excelência, no qual a cidade vive, não é de agora. A ironia é que os verdadeiros urubus estão travestidos de pombas. Se o senhor só percebeu o caos em que Cachoeirinha vive neste momento, ainda tem mais um ano e meio de mandato para dizer a que veio e ficou, ou assuma a total incompetência de seu partido e correligionários para tirar Cachoeirinha das capas de jornais e das matérias de tristes legendas e alçá-la a posição que merece, como uma cidade mais humanizada, socialmente justa, com políticas públicas consolidadas e transparentes e cuja qualidade de vida de seus habitantes se torne referência para o estado e o país.