Centro de referência auxilia mulheres vítimas de violência | 2M Notícias

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Centro de referência auxilia mulheres vítimas de violência

Centro de referência auxilia mulheres vítimas de violência

De acordo com dados do Instituto Maria da Penha, a cada dois segundos uma mulher sofre violência física ou verbal

A voz calma e a serenidade na fala da ex-gerente administrativa entrevistada pela nossa equipe contrastam com os momentos horríveis vividos por ela entre abril de 2013 e outubro do ano passado. “Meu marido e eu éramos casados há 11 anos e tínhamos um restaurante juntos. Certa vez, resolvi pedir a separação – que ele nunca assimilou de maneira adequada. Desde então, fui ameaçada de morte várias vezes. Foram muitas as agressões verbais. Ele me incomodou bastante. Meu ex-marido me ameaçava e dizia que ia explodir o meu carro. Além disso, falava que iria rezar para que eu morresse”, conta nossa entrevistada, que pediu para não ser identificada.

“Já fui ofendida por ele no meu local de trabalho e na faculdade – inclusive com gritos perante os meus colegas”, afirma a ex-estudante de arquitetura, que nunca mais voltou aos estudos por conta do ocorrido. “Eu nunca mais consegui estudar e também tive que largar o bom emprego que tinha”, recordou.

“Eu não conseguia mais dormir. Cheguei a emagrecer 18 kg. Nosso filho, que tem 11 anos, presenciou boa parte dessas agressões – inclusive, meu ex-marido mandava mensagens para o celular dele”, lembrou.

Ainda sim, nossa entrevistada conta que, todos os anos, comprava uma torta para comemorar o aniversário do ex-marido. “Certa vez, dois dias antes do meu aniversário, ele quebrou toda a minha casa. Foi a partir disso que percebi que não dava mais para aguentar essa situação, e resolvi procurar ajuda. Prestei queixa à polícia e as agressões pararam”, contou.

Mudança após o atendimento na Casa Lilás

“Lembro que cheguei até a Casa Lilás chorando muito. Fui atendida na mesma hora”. A ex-estudante conta que o trabalho com a psicóloga é muito importante para sua recuperação. “Hoje em dia, estou melhor. Não tenho mais o desespero que eu tinha. Esse lugar me transmite paz”, disse. “Porém, sinto que fiquei dependente da psicóloga – não consigo ficar uma semana sem ela”, afirmou. O Centro de Referência da Mulher em Gravataí, conhecido como Casa Lilás, presta auxilia a vítimas de violência doméstica.

Sobre o ex-marido, nossa entrevistada se limitou a dizer que os pedidos de desculpas do agressor não amenizam a dor sentida. “Tudo o que eu tinha, hoje não tenho mais. Só fiquei com a minha casa”, lamenta.

18 acolhimentos técnicos foram realizados no município em 2017

Na última segunda-feira (7), a Lei n° 11.340, conhecida como Maria da Penha, completou 11 anos de sua aprovação no Congresso Nacional. A Lei leva o nome da farmacêutica que é símbolo da luta pelo fim da violência contra a mulher. Ela foi vítima do próprio marido e ficou paraplégica após as agressões. A partir do regulamento, a violência doméstica e familiar contra a mulher passa a ser crime. Além disso, a regra cria mecanismos para coibir e prevenir a agressão ambientada na convivência familiar e se tornou um instrumento de transformação social ao longo dos seus 11 anos de existência.

Conforme dados do Serviço de Acolhimento à Mulher, à Criança, ao Adolescente e demais indivíduos em Situação de Violência (Seama) de Cachoeirinha, 18 acolhimentos técnicos foram realizados no município em 2017. “Nesta primeira etapa, as mulheres são acolhidas e têm assistência social e psicológica”, explica a coordenadora de proteção social especial do Seama, Simone Moraes. No ano passado, 94 acolhimentos foram realizados. “Os números são baixos porque diversas mulheres em situação de violência relutam em procurar auxílio”, disse. “Muitas delas relatam dependência financeira e emocional de seus maridos, e aí está a dificuldade em buscar ajuda”, completou. Neste ano, também foram realizados 44 acompanhamentos psicossociais de vítimas com profissionais do Serviço de Acolhimento à Mulher.

Conforme a coordenadora de proteção social do Seama, o envolvimento afetivo é importante para a recuperação das mulheres. “Após romper com o ciclo de violência, tentamos nos envolver afetivamente e trabalhar pelo fortalecimento emocional dessas mulheres”, explicou Simone. Para o secretário municipal de Assistência Social, Francisco Dias, a importância do auxílio prestado pelo Serviço de Acolhimento se estende às famílias. “As mulheres que nos procuram se sentem acolhidas, e isso é repassado para dentro de suas casas”, lembrou.

Ciclo da lua de mel

Em diversas oportunidades, mesmo sofrendo agressões, muitas mulheres voltam para seus parceiros. Para a psicóloga Analu Sônego, isso é uma questão cultural. “Essa crença de que a situação está dentro da normalidade está enraizada nessas mulheres”, disse. “Os maridos, por sua vez, dizem que vão mudar. Elas voltam para eles e isso configura o chamado ciclo da lua de mel”, explicou.

O Seama

Desde 2009, o Serviço proporciona atendimento e acompanhamento multidisciplinar às mulheres em situação de violência física, psicológica, moral, patrimonial e sexual. O objetivo do Seama é acolher, orientar e aconselhar essas vítimas. Conforme Simone, desde o início da atuação do Seama, mais de 1000 mulheres já foram acolhidas. As vítimas podem acessar o serviço por demanda espontânea, Ministério Público, Defensoria Pública, Delegacia da Mulher ou outros serviços da rede de proteção.

Ajuda

Denúncias podem ser feitas através dos telefones 0800 6441 644, 3431.3143 ou 3439.3259. O Seama fica na Rua Silvério Manoel da Silva, 550, no bairro Jardim Colinas, em Cachoeirinha.